Malabares
Você já passou pela seguinte situação?: sua avó lhe manda comprar pão à cinco da manhã, mas, para te compensar muito bem, dá-lhe o quíntuplo do dinheiro e lhe autoriza ficar com o troco. Então – porque você nunca teve sorte na vida – é assaltado. Às cinco da droga da manhã. Levam o pão, o dinheiro e o bom humor matinal, que nunca sequer existiu.
Já aconteceu?
Pois, se você é do tipo que sorri com a desgraça alheia, ria até eu mandar parar. Provavelmente não o farei, pois minha capacidade de ordem se esvai quando choro e escarro tresloucadamente.
Não tenho talentos visíveis. Embora já tenha pago por aulas de violão e tido a oportunidade de ser a mais nova faixa-preta de Tae-Kwon Do do Estado, minha única habilidade, como descobri, orbita em nunca terminar o que começo e iniciá-lo muito mal. Clichê. Nem inéditas são minhas bestas aptidões.
Seja como for, mês passado consegui, afinal, executar um número para qual me dedico (pelo menos mentalmente) há dezesseis anos – não sou tão sobrenatural a altura lembrar meus pensamentos de um ano de idade. Minha década e sete anos de perseverança não foi muito empírica, pra falar a verdade. Tirando aqueles três dias, mês passado.
Todas as coisas, das quais tenho muito orgulho, aprendi no intervalo de no máximo 24 horas: levantar um sobrancelha só, assobiar melhor que um rapaz, jogar truco, decorar o movimento das peças de xadrez, dar nós escoteiros e (tam tam tam tam) malabarismo com três bolinhas!
Sim, aprendi a fazer a coisa. Esfrego isto na cara dos que não sabem com muito louvor. Posso fugir com o circo a qualquer momento.
Deixando de festa, porque verão que não tenho direito a tal, prossigo.
Saibam, também, e isto é muito importante, que deixei de ser gandula no vôlei há vários meses, contudo, minha aceitação no grupo não tem sido igualmente ufana. Alguma coisa a ver com minha estatura medíocre para bloqueio e um passe amaldiçoado diretamente aos órgãos genitais do Túlio. Muito compreensível.
O fato é, que minha evolução nos malabares coincidiu com minha promoção no time. Para juntar o útil ao agradável – orgulhar a mixa parcela racional de meu cérebro – cheguei estrategicamente mais cedo ao ginásio, levando comigo as três bolas de tênis. Com o intuito de não fazer alarde, fiquei treinando no fundo da quadra enquanto o pessoal chegava, a se aglomerar em volta.
Ao contrário de me achar metida, a patota foi deveras acolhedora (pudera, comecei no dia anterior. Estava na cara minha falta de prática e provavelmente a simpatia ocorreu só porque eu devia estar muito patética). Pude apenas agradecer a comiseração. Fizeram caras felizes e brincadeiras típicas das que fazem com as outras garotas. (detalhe: lá clube a turma de vôlei é mista, todas as idades. Aliás, tirando o Marcus – que deve ter uns nove anos – abaixo de trinta, só eu e mais uns quatro). Nem é preciso esforço para figurar minha satisfação.
Nesta altura do picadeiro, a Ana Maria, muito simpática, comentou que na minha idade também havia se aventurado no negócio, mas que desistiu e sei lá mais o quê. Aí, eu, mais simpática ainda, perguntei se ela queria tentar – francamente, a mulher estava praticamente comendo minhas bolas com os olhos (sem analogias, faz o favor), e, além do mais, se ela queria fazer papel de idiota... ótimo. Mais ribaltas pro meu lado. Deus sabe que eu estava precisando.
O resto do pessoal começou uma cantilena de incentivo e, no fim das contas, a Ana Maria, muito cretina, aceitou o desafio.
Que desistiu na minha idade que nada!! Ela tem o triplo disto e malabares não é como andar de bicicleta ou beijar na boca. Se eu tivesse levado a sério a profissão de detetive, proposta aos cinco anos, tivesse a seguido naquele mesmo dia após o treino, é muito provável que daria com os burros lá no circo, onde, presumo ela ter passado esta a as suas seis mil vidas anteriores. Fraude completa a conversa de “ai, ai, ai, mas estou tão enferrujada”. A bendita é a maior profissional. Até inverter o sentido das acrobacias, passando por debaixo da perna, pelas costas e sei lá mais por onde, ela deu conta.
Murchei gradativamente. Mentira: foi de uma vez. Naturalmente todos foram complacentes comigo. Eles e aqueles tapinhas no ombro de “é, minha filha...”.
Até hoje o treinador Charles me chama carinhosamente de ‘Malabares’. Posso até estar exagerando no drama, mas, agora, sempre que minha avó me oferece o troco do pão, levanto uma sobrancelha, faço um nó de Tiradentes e morro ali mesmo. Sem delongas, porque posso acabar convidada a uma partida de xadrez por alguém que "acabou de aprender".
P.S.: tenho até vergonha de voltar com uma coisa tão tacanha, mas como ninguém ainda deve vir aqui mesmo...
P.S.S.: e não é que consegui editar o perfil?! Não caiam nele, é só um teste. Agorinha faço um de verdade.
Escrito por Mariana às 15h22
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