Esquivou-se das asneiras, contornou suas palavras e golpeou-lhe com a verdade:


Boliche

Resolvi assumir algumas coisas. Demorei, com direito a exagero, a fazê-lo. Devido à tão estapafúrdio adiamento, esperei um grande choque – o bangue do conformismo após anos de negação –, entretanto, não foi o que aconteceu.

Descobri que todas estas abnegações cobertas, com fervor, por esquivos, lágrimas e sorrisos amarelos, embora camufladas com dignidade, vinham pesando minhas costas. Assim que as tirei da já conquistada corcunda – de onde era impossível olhá-las de frente – não viraram pena, é claro. Entretanto, o fato de tê-las tirado das omoplatas e colocado nas mãos ajudou instantaneamente. Isto é, ficou bem mais fácil livrar-me delas.

Minha pontaria é mais bem administrada por minhas mãos do que por meus ombros.

 

Resolvi também, abandonar a empresa de entender por que em alguns dias, cada vez mais freqüêntes, uma tristeza súbita organiza uma campeonato de boliche, sendo ela a bola e todo o meu sangue os pinos. A tristeza é uma profissional neste esporte, e passa a circular até nos confins do meu corpo, de modo que, se eu fosse reduzida ao mindinho do meu pé, estaria mortalmente infeliz.

Houve um tempo em que procurei lugares para ir, não pessoas para visitar (Deus-me-livre!). Lugares. Foi difícil, pois na minha cidade não tem nenhum píer cheio de charme californiano. Não por isto, nem por enjoar das minhas ruas sujas, pintalgadas por botecos e salões de beleza, parei de andar. Porque encontrei algo melhor: deitar no chão do quarto minúsculo. De braços abertos e peito pra cima, sob a esperança macabra da tinta descascada no teto virar imensas rachaduras seguidas por uma morte apocalíptica sob a Gravidade.

Esperar, senão o soterramento da vida, a encarnação de um espírito austero o suficiente para me fazer aguardar mais um pouco.

Ficar na expectativa de a tristeza tomar boa dose de inteligência para enxergar que não sou nada interessante, e se mandar em busca de coisa melhor.

 

Costumo pensar em coisas sérias enquanto caminho. Jogar um pé e depois outro, numa seqüência maquinaria, cheia de engrenagens movidas por fios em algures de meu metencéfalo. É provável que meu cerebelo aproveite grande parte da atenção liberada para eu não esbarrar em postes – ou, na pior das hipóteses, pessoas – para matutar, inclusive, minha grave necessidade de estudar matemática. Tenho tantas coisas sérias, nas quais, deveria trabalhar. O mais certo é conseguir uma vaga nos Correios.



Escrito por Mariana às 10h02
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Putz, estou com este blog há quatro anos. E ainda falo “putz”. Pra vocês verem que colocar a minha idade aqui é algo totalmente inútil. Primeiro porque provavelmente ficarei mais de um ano sem atualizar isto aqui, fazendo vocês pensarem que eu ainda tenho 18 anos, e segundo porque, putz, ninguém com a minha idade ainda escreve o que fala. De qualquer forma, meu nome ainda é Mariana, ainda finjo escutar somente rock e ainda pago recompensas para quem achar meu balde de lego perdido no verão de 1995. Algumas coisas mudaram: descobri como mudar o template do blog, mas preferi deixar assim. Antes, eu queria por tudo mudar, mas não sabia como. As coisas mudaram. Sejam bem vindos ao blog, que tem esse nome porque houve um tempo em que estava na moda usar palavras sonoramente feias, mas que denotassem uma espécie de sátira inteligente. Sim, eu sei que esta é uma das coisas que deveriam mudar, assim como o template.
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