Primórdios de Internet
Meus vizinhos mais remotos – e isto significa os que eu ainda consigo recordar – eram o Rafael e a Fernanda. Claro que não eram os únicos moradores do apartamento ao lado, mas para mim, os pais deles não eram interessantes, logo, não serão citados. Na verdade, sequer lembro da cara deles (dos pais), estou apenas supondo que duas crianças não viviam sozinhas, sem a supervisão de no mínimo dois adultos, no 404. Ainda na primeira metade da década de 90, os telefones residenciais não eram tão comuns em famílias de classe média baixa, de modo que as peripécias mais divertidas no meu tenro Condomínio Érica cirandavam sempre ao redor de uma prosaica engenharia de telefones reciclados à base de barbante e copos de plástico, e outros materiais. Como meu avô é Mestre de Obras e meus pais e eu visitamos ele com uma freqüência quiçá enjoativa desde que carregamos nossos respectivos nomes, nesta época, eu voltava pra casa cheia de mangueiras de nível, prumos (exceto pelos meus Legos e Barbies, manufaturava a maior parte dos meus brinquedos) e razoável quantidade de areia nas roupas (pois até a aposentadoria de vovô, estações de esqui – como agradava-me acreditar – feitas de areia de construção no quintal dele eram constantes). Em todo caso, meus telefones pueris eram disputados no condomínio. De fato, e isto soa atípico hoje, todos queriam conversar comigo. Isto, devido à grande eficiência da mangueira de nível enquanto meio de comunicação. Quanto maior a obra em que meu avô estava envolvido, maior era o meu círculo social (muito orkútico, não?). Lembro-me de quando ele estava construindo um dos primeiros grandes edifícios de um hodierno setor nobre da cidade. Devia ter uns seiscentos andares, e a mangueira de nível usada nesse processo era bem equivalente. Como bem se sabe, em uma só construção há várias mangueiras de nível, afinal, mil trabalhadores dividindo uma só traria no mínimo o caos. Assim, meu avô acabou dando-me o melhor presente de todos e voltei pra casa com a internet primitiva. No mesmo dia, estabeleci assídua comunicação com o pessoal (e este termo, evidentemente, se restringe às crianças) do bloco D. Uma verdadeira evolução. Nós, do bloco B, até aquele dia, estávamos isolados na Alegoria da Caverna. A partir daí, ampliei minhas ambições e convenci meus amigos aprovarem o projeto de comunicação noturna e silenciosa (escrita). Na realidade, não éramos gatunos soturnos, cheios de maracutaias na calada da noite, simplesmente a idéia de burlar o horário limite das vinte e uma horas era sublime no quesito diversão. Mesmo que só para conversar fiado. A idéia era transformar o fio de comunicação numa rede para enviar bilhetinhos comprimidos em pílulas de remédio. Depois de ler 1984, percebi que a história de cilindros compressores (ou seja lá como for o nome) já era praticada por nós. Voltando ao Rafael e a Fernanda, eles não se ligavam muito aos telefones sem fio e isto encucava-me. Eles passavam os dias depois da escola sentados no chão do corredor, com aquele ventilador portátil ligado na tomada coletiva, falando bem próximos à pá em movimento, muito satisfeitos com a alteração de suas vozes. Analisando a coisa toda agora, penso que eles eram mafiosos; e a estória de tremerem o timbre da voz não passava de camuflagem de seus planos de tráfico. Ou de burlarem o juizado de menores e manterem os pais reféns na grade da janela do banheiro.
Escrito por Mariana às 17h23
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