Esquivou-se das asneiras, contornou suas palavras e golpeou-lhe com a verdade:


Estupenda Queda

 

 

 

 

O Feito mais extraordinário de minha vida foi perceber as últimas de uma bala de menta na minha língua. Não falo daquelas pastilhas que se dissolvem apenas com umidade, elas não contam; refiro-me àquelas balas realmente sólidas. Uma vez colocadas na boca, sob o juramento dos dentes não trabalharem, e o compromisso de os males do destino não provocarem um ataque de tosse, essas balinhas estão prontas para uma eternidade.

Fui vítima de várias tentativas. No início delas quase morri engasgado por inexperiência, quando não se concretizavam, simplesmente. Gostava de tentar vencer a vontade de mastigar antes de dormir: após escovar os dentes (pois se mordesse, o açúcar se alojaria em meus molares, teria cáries e adeus balas de menta), deitar-me e começar a mania de pensar nas vias da vida e de como ela poderia ser se eu tivesse mais fixações além de acompanhar a morte paulatina de uma bala de menta.

Mas eis que cheguei lá. Alcancei minha meta e fiquei devidamente satisfeito. Um sorriso, como um nevoeiro do bosque indo embora. Lembro-me de ouvir o último sopro, as últimas refrescantes aspiração e respiração, as quais, nesta altura de quase epitáfio eram meros bafos decadentes. Suspiros fúnebres de um ramo de hortelã no meio de achas.

Uma passagem pueril na vida de um homem, pode este fato aparentar. No entanto, só foi acontecer após mais de uma década de existência. Estendeu-se mais do que deveria, talvez... Não sei ao certo a data, tampouco onde. Pode ter sido na árvore, ou encima da tampa da cisterna. E é esta vagueza cronológica e aleatória que me aporrinha.

Por não lembrar quando e em qual lugar percebi o fim da bala de hortelã, passo a desacreditar. Posso perfeitamente ter sonhado, ou escutado o mesmo relato de alguém deveras apto a realizar uma façanha de tal magnitude, e atribuído por inconsciente esta ribalta a mim.

A palavra de minha mente deveria bastar, uma vez que senão a dela, não me restará mais nenhuma para crer. Pois já não confio em meus motores. Meu esqueleto está pérfido... Meus pés traidores vão para postigos. Minhas costas doloridas deitam em qualquer musgo.

Então, preciso de uma prova. Quem sabe realizar novamente (ou pela primeira vez?) o tal feito.

Não é mesmo o melhor plano de vida para um adulto. Por certo teria sido mais saudável ter fracassado mais cedo... Ter tido uma estupenda queda antes, trágica o bastante para preocupar-me e ocupar-me até hoje, e agora eu ter motivo para descer da árvore e parar de escutar o barulho da cisterna, porque ambas já secaram e o papel verde da bala de menta é como uma folha de milagre em meu braço estendido qual um galho seco.



Escrito por Mariana às 11h35
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Putz, estou com este blog há quatro anos. E ainda falo “putz”. Pra vocês verem que colocar a minha idade aqui é algo totalmente inútil. Primeiro porque provavelmente ficarei mais de um ano sem atualizar isto aqui, fazendo vocês pensarem que eu ainda tenho 18 anos, e segundo porque, putz, ninguém com a minha idade ainda escreve o que fala. De qualquer forma, meu nome ainda é Mariana, ainda finjo escutar somente rock e ainda pago recompensas para quem achar meu balde de lego perdido no verão de 1995. Algumas coisas mudaram: descobri como mudar o template do blog, mas preferi deixar assim. Antes, eu queria por tudo mudar, mas não sabia como. As coisas mudaram. Sejam bem vindos ao blog, que tem esse nome porque houve um tempo em que estava na moda usar palavras sonoramente feias, mas que denotassem uma espécie de sátira inteligente. Sim, eu sei que esta é uma das coisas que deveriam mudar, assim como o template.
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