Foi mais ou menos ali que acordou, naquele canto mesmo. Confia. Por estes dias, por mais que já não tenha nenhuma marca de corpo na poeira imensa – mas é porque a poeira aqui é insana mesmo. Daqui a pouco a marca do seu sapato vai ser inundada por micro partículas de qualquer coisa; e o próximo que entrar aqui também vai tentar convencer seu acompanhante de que, sim, foi mais ou menos por aqui que você e eu passamos, por aqui mesmo, perto do canto, por aqui onde vão ficar rastros de poeira nova no chão daqui a pouquinho.
Ele acordou e saiu andando, nem adianta procurar sinais de arrastamento. Anda, segue ali por aquela porta, que já está aberta e tem uma luz no final. Não banquemos os corajosos, porque é verdade que nunca vamos abrir uma porta fechada, ainda mais sem nenhuma iluminaçãozinha pelo vão do capacho.
Então, ele disse que acordou e foi direto ao sebo, trocar o livreco remanescente em seu casaco de mil bolsos por umas notinhas. Acontece que não falou nada sobre o caminho intermediário entre lá e cá, por isto agora estamos questionando poeira ultra-reprodutiva e luz mirrada. Entregou o livreco e foi atrás do quê gastar com os trocados que tinha na mão: obviamente alguma comida, com a qual pudesse andar mais um pouco até desmoronar em outro canto poeirento.
O que não me interessa, veja bem.
O ponto é que no livreco tinha um dos bilhetes lembretes que geralmente uso de marca-texto. Você sabe que demoro um mês pra terminar aquela espécie de literatura, daí, geralmente marc... sei, você marca as páginas com seu plano de férias, porque você só lê aquele tipo de literatura antes das férias, pra sensação de alívio ser maior. Você acaba o trabalho, acaba o livro insuportável, acaba os compromissos inevitáveis com a família, me dá o novo telefone da sua prima, me dá um quebra-cabeça de cem mil peças, um livro que você nem usou marca-texto e um doce enorme pra durar trinta dias e vai embora, feliz com seu bilhete lembrete triunfante por ter saído de dentro de alguma história seriamente entediante.
É, é isso. Bem, não empaca, porque por sorte terminei o livro com um dia de folga e isto significa que você vai poder ligar pra Marcela um dia antes do esperado. – olhou com o cérebro de experiência para trás, vendo que a poeira parecia ter virado cimento nos pés dele.
E a segurança imaculada vacilou por uns segundos. Sabia de forma bem fincada em sua cognição que ele não estava se importando com o livro auto-marcável, com as peças montáveis e tampouco com o doce árabe que tinha acabado de descobrir e ia deixar na geladeira dele de surpresa.
Continuou andando pelo corredor da porta aberta com a luz medíocre no final do corredor, talvez para se afastar e levar consigo o breve medo dele de fato empacar, de não se livrar do último abrolho para ir pra aonde o bilhete lembrete mandava. Por fim ouviu passos e seu coração diminuiu o rebuliço, mas não deixou de imaginar poeira como cola espessa a tornar as pisadas dele cada vez mais impossíveis, até destruir todas as suas chances de encontrar o livreco.
Sabe, se você não lembra do que está escrito no lembrete, o itinerário seria surpresa de qualquer maneira, então por que você não deixa eu escolher aonde você vai? Escrevo num guardanapo, coloco num livro maçante, você acorda e vai...
Não. Você pode acabar me montando um roteiro repetido – já começava a se assustar com aquela audácia, e isto não lhe fazia bem. Tratou de armar um argumento de diplomata, de diplomata que impõe só condições impossíveis e disse com um sorriso que o ofenderia e ele jamais compraria – tenho certeza que escrevi um lugar conhecido no bilhete, deve ter algum quebra-cabeça com um postal. Você monta e quando terminar vai me encontrar...
Ele cogitou a proposta de uma forma tão pueril que ela percebeu. Ele não era de ironias e estava praticamente rindo de sua cara. Ela levantou as sobrancelhas, mostrando que havia percebido o sarcasmo de sua expressão. Ainda bem que a luz já tinha aumentado, porque a mudança de maneiras dele estava começando a assustar.
Você tem um trocado? Perguntou sem mais nem menos, fazendo uma erosão na expressão divertida dele.
Pra quê?
A carteira dele estava vazia. E ele nunca, nunca, nunca mesmo ficava sem trocados. Só gastava notas soltas em emergências. E ela se lembrou de que não havia nenhum sebo por ali.
Escrito por Mariana às 23h53
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