Esquivou-se das asneiras, contornou suas palavras e golpeou-lhe com a verdade:


Desculpa, mas agora eu não mexo mais com metais

Capturado de todo grado pelas influências de fantasia de sua infância, acabou por sonhar com uma realidade bem seqüencial e cheia das metonímias, assim como a dos desenhos animados, onde a personagem tinha sempre as mesmas roupas e em poucas palavras, gestos ou rabiscos podia-se conhecer seu cerne físico e intelectual. Era uma vida simples e que funcionava.

Mantinha uma quantidade estranhíssima de objetos no bolso, em sua maioria penduricalhos que viriam a calhar tal qual o cinto de utilidades do herói favorito. Ou assim acreditava, fazendo a mãe ter de remendar os bolsos relaxados uma vez por mês.

Decidiu existir numa órbita em que podia perfeitamente retirar um trator do paletó e ir de bicicleta ao resto do Muro de Berlin. E quando viu estar sozinho nesta, esparramou a mão na testa e começou a desistir.

Muito preocupado com a falta de recrutas e de candidatos dispostos a se contentarem com o posto de Robin, foi andar por um desses edifícios com muros de vidro em voga. Tudo o que via era o próprio reflexo, passando em cinematografia. Está aí alguém interessante e que levaria comigo à lua, pensou ele todo Narciso.

Queria mesmo era saber o raio que era si mesmo. Sem lá muita filosofia. Despretensiosamente, sempre se achou muito interessante – quem mais, afinal, perdia tempo com imaginar transporte livre e objetos fantásticos à vontade? Bem, muitos seres à margem do sociável por aí, de fato, mas ao seu alcance, só o habitante ambulante dos muros de vidro.

Por isto, tinha uma vontade débil de se conhecer e ser seu próprio amigo. De ir com ele ao parque e à tediosa palestra em japonês, suportando isto de forma aprazível, por estar em boa e permanente companhia e por ter um balão de pensamento planetário pairando sobre o cocuruto.

Mais ou menos aí, percebeu que todos não prestavam (não perto dele, que era o psicólogo, o mestre das idéias e de consolar no sempre de tristeza, e o mapa para as vielas impossíveis).

O mais certo era se retirar, e, por conseguinte retirar todos de sua caderneta de vagas abertas ao cargo de Robin. Só aquele desconhecido parecia capaz de entender, de arrancar ele dos travesseiros para ir ver um filme ou alguma apresentação musical, completamente sozinho (aliás, em sua companhia).

O estranho não demorou muito a ler seus pensamentos e dar opiniões sobre as suas roupas, e deixar que ele o fizesse também. Mas tinham as mesmas preferências, de modo a saírem idênticos e fundidos, de um jeito que quando encontravam conhecidos na rua eles perguntavam: “mas você veio só?”. O que era embaraçoso e o fazia mentir, dizendo que “havia perdido de alguém”. E isto o obrigava a embarcar numa tentativa bestíssima de zangar-se com o suposto novo amigo por ter se afastado, na hora em que ele mais precisava exibir a línguas férteis que não era um solitário!

O que de longe funcionava: enfezar-se com ele estranhamente doía bem mais em sua própria carne. Acordavam já de pazes feitas e no outro dia já revisavam a matéria da prova, liam do mesmo livro e dividiam a gasolina para assistir a “Medos Privados em Lugares Públicos” em desculpa cheia de fiapos soltos para espionarem o vilão de capa no meio do Cerrado.

Não invejava os milhões de casais e grupos risonhos. E isto o preocupou, pois a amizade consigo mesmo era tão forte que lhe fechava os olhos para o que parecia ser a real felicidade: os risos coletivos, os arrebates sonoros e físicos de vida no chão. Chegou a desmentir a tautologia de que amizade é no mínimo dupla, não conseguiu convencer ninguém e passou a desacreditar-se, olhando-se horas no muro vítreo a procura de outras pernas, pois assim teria mais bolsos para carregar mais bugigangas e, um dia, responder sim, quando alguém perguntasse: você tem um martelo de ourivesaria aí?



Escrito por Mariana às 01h02
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Putz, estou com este blog há quatro anos. E ainda falo “putz”. Pra vocês verem que colocar a minha idade aqui é algo totalmente inútil. Primeiro porque provavelmente ficarei mais de um ano sem atualizar isto aqui, fazendo vocês pensarem que eu ainda tenho 18 anos, e segundo porque, putz, ninguém com a minha idade ainda escreve o que fala. De qualquer forma, meu nome ainda é Mariana, ainda finjo escutar somente rock e ainda pago recompensas para quem achar meu balde de lego perdido no verão de 1995. Algumas coisas mudaram: descobri como mudar o template do blog, mas preferi deixar assim. Antes, eu queria por tudo mudar, mas não sabia como. As coisas mudaram. Sejam bem vindos ao blog, que tem esse nome porque houve um tempo em que estava na moda usar palavras sonoramente feias, mas que denotassem uma espécie de sátira inteligente. Sim, eu sei que esta é uma das coisas que deveriam mudar, assim como o template.
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