Dias Pequenos
São dias que merecem uma convenção universal dos meteorologistas, com o único objetivo de estabelecer uma quinta estação. Uma estação só de dias amenos.
Palestras, seminários e cálculos, a fim de espremer um pouco o impopular outono, podar aqui e ali a enjoativa primavera e quietar o facho do verão. Que deixassem, pois, o inverno.
Que deixassem os dias frios, para que os dias amenos não fossem os mais amaldiçoados.
Nos dias amenos, que são fracos, os deuses se aproveitam da morbidez para se ocuparem com afazeres leves.
Nos dias amenos, chaves perdidas reaparecem, assim como bilhetes velhos e amigos magrinhos da infância.
Nos dias amenos, qualquer suspiro vira enfermidade. E tanto para o arranhão quanto para o coma, se utiliza a menos nobre das panacéias: o sono selvagem. O sono cheio de espasmos e hipóteses de nunca mais acordar.
Se aquela convenção acontecesse, se uma quinta estação caísse no calendário, prometendo somente dias lerdos, situações como a que eu vou contar aconteceriam mais vezes...
Num dia ameno, inalei por acidente algo que eles usam para desinfetar superfícies. E para quem não conhece o efeito, falo da sensação de consecutivos socos no estômago desavisado, dados por uma criança gorducha.
Engoli litros de água, esquecendo-me de que estava num dia ameno e só havia uma medida a tomar. Assim, caí no melhor da embriaguez soporífica.
Quase fui cego por uma seqüência de acontecimentos em perfeita ordem e clareza – nada usual nos meus sonhos, diga-se.
Vi as coisas exatamente como eram... meu ordinário existir. De fato, o que vi foi uma suposição muito fiel do que eu faria assim que acordasse: um pequeno almoço e o conserto de uma cantoneira.
Sonhei que eu era eu. Nu e cru. Com direito às dores habituais no tornozelo, sobretudo na hora de agachar para medir a altura da cantoneira. Sem delongas, sem efeitos especiais; um sonho, que não passava de uma previsão de tempo.
Ajeitei-me esperto no sofá onde tinha desabado, igual quando se acorda de uma vez ao sonhar com queda livre e tropeços.
Nos dias amenos, que são um bocado anêmicos, os sonhos com poder voar dão lugar àqueles sem magia, com cara de documentário.
Escrito por Mariana às 20h21
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