Esquivou-se das asneiras, contornou suas palavras e golpeou-lhe com a verdade:


Dias Pequenos

São dias que merecem uma convenção universal dos meteorologistas, com o único objetivo de estabelecer uma quinta estação. Uma estação só de dias amenos.

Palestras, seminários e cálculos, a fim de espremer um pouco o impopular outono, podar aqui e ali a enjoativa primavera e quietar o facho do verão. Que deixassem, pois, o inverno.

Que deixassem os dias frios, para que os dias amenos não fossem os mais amaldiçoados.

 

 Nos dias amenos, que são fracos, os deuses se aproveitam da morbidez para se ocuparem com afazeres leves.

Nos dias amenos, chaves perdidas reaparecem, assim como bilhetes velhos e amigos magrinhos da infância.

Nos dias amenos, qualquer suspiro vira enfermidade. E tanto para o arranhão quanto para o coma, se utiliza a menos nobre das panacéias: o sono selvagem. O sono cheio de espasmos e hipóteses de nunca mais acordar.

 

Se aquela convenção acontecesse, se uma quinta estação caísse no calendário, prometendo somente dias lerdos, situações como a que eu vou contar aconteceriam mais vezes...

 

Num dia ameno, inalei por acidente algo que eles usam para desinfetar superfícies. E para quem não conhece o efeito, falo da sensação de consecutivos socos no estômago desavisado, dados por uma criança gorducha.

Engoli litros de água, esquecendo-me de que estava num dia ameno e só havia uma medida a tomar. Assim, caí no melhor da embriaguez soporífica.

 

Quase fui cego por uma seqüência de acontecimentos em perfeita ordem e clareza – nada usual nos meus sonhos, diga-se.

Vi as coisas exatamente como eram... meu ordinário existir. De fato, o que vi foi uma suposição muito fiel do que eu faria assim que acordasse: um pequeno almoço e o conserto de uma cantoneira.

Sonhei que eu era eu. Nu e cru. Com direito às dores habituais no tornozelo, sobretudo na hora de agachar para medir a altura da cantoneira. Sem delongas, sem efeitos especiais; um sonho, que não passava de uma previsão de tempo.

 

Ajeitei-me esperto no sofá onde tinha desabado, igual quando se acorda de uma vez ao sonhar com queda livre e tropeços.

Nos dias amenos, que são um bocado anêmicos, os sonhos com poder voar dão lugar àqueles sem magia, com cara de documentário.



Escrito por Mariana às 20h21
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Putz, estou com este blog há quatro anos. E ainda falo “putz”. Pra vocês verem que colocar a minha idade aqui é algo totalmente inútil. Primeiro porque provavelmente ficarei mais de um ano sem atualizar isto aqui, fazendo vocês pensarem que eu ainda tenho 18 anos, e segundo porque, putz, ninguém com a minha idade ainda escreve o que fala. De qualquer forma, meu nome ainda é Mariana, ainda finjo escutar somente rock e ainda pago recompensas para quem achar meu balde de lego perdido no verão de 1995. Algumas coisas mudaram: descobri como mudar o template do blog, mas preferi deixar assim. Antes, eu queria por tudo mudar, mas não sabia como. As coisas mudaram. Sejam bem vindos ao blog, que tem esse nome porque houve um tempo em que estava na moda usar palavras sonoramente feias, mas que denotassem uma espécie de sátira inteligente. Sim, eu sei que esta é uma das coisas que deveriam mudar, assim como o template.
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