De quando se olha lá atrás
Num desses assaltos de independência, que só têm a ver com a pouca idade e com nenhum tico de habilidade para prever um futuro cheio de dores nas costelas exatamente por causa desses assaltos, resolvi seguir para a faculdade de bicicleta. Rejeitar carona do pai e passes de ônibus pela metade do preço (devido à condição de estudante).
Acordar antes dos galos e ver no percurso apenas o pessoal da construção civil e mães sofredoras arrastando crianças sonolentas para portas de escolas ainda fechadas. Um singelo ato de auto-flagelação para mim, cujo maior dilema nunca ultrapassou “manteiga ou geléia no pão?”.
E nas primeiras vezes em que parti cidade acima, só de companhia uma certa neblina encardida e as primeiras fornadas das padarias, só conseguia pensar em como meus pais tinham se desfeito do (quase) meu fusca amarelo, o qual me deixava ter mais uma hora de sono, algum status social e um cheiro melhor do que aquele de quem chega de bicicleta.
Nada muito distante da geléia de da manteiga no pão.
Então, me perguntei se toda aquela gente minguada nas primeiras horas da manhã faziam parte da ladainha de fazer o diabo quando se completa dezoito anos, porque, no fim do dia, a lembrança delas me provocava efeito igual ao das bebedeiras desenfreadas e viradas de noite em qualquer anti lugar imundo entre-ruas. Uma dor de cabeça lascada.
Oh, sim, elas eram a parte principal. Elas estavam prontas pra me largarem na vida com um monte de seqüelas e planos bês para mudar a política. Planos para engrossar a voz no meio de um bando de gente que só viria a acordar daqui a cinco horas. Planos para recuperar o fusca e dar carona à mãe e suas sacolas.
E, nesse meio tempo, o assalto de independência teve de descer do cavalo branco e atravessar o rio a pé, pois, de repente, meus maiores planos dependiam de quem eu sequer conhecia. A começar por mim mesma.
Escrito por Mariana às 22h41
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Ca-bum!
Não é na realidade um big bang, igual quando num feriado manso na beira do rio o ente querido próximo cai e é devorado por piranhas. Um acontecimento desses é big bang legítimo; se dele não surge pelo menos um planeta, ele faz surgir efeitos outrossim consideráveis, tais como sentimentos de união e solidariedade, que nunca deram as caras antes.
Mas quando essa outra espécie de big bang – que se distancia bastante da original – acontece, bem, nenhuma Terra aparece, e tampouco o sentimento que for.
É mais uma regurgitação bocejante de um Odin indigesto, em câmera lenta. Muito devagar o cenho adquire fissuras permanentes e as quinas das sobrancelhas cismam em escorrer desesperadamente têmporas abaixo.
A cada dia um espasmo que equivale a uma só mordida dos peixes que comeram o parente querido. Mas é preciso mais que uma dentada para a solidariedade bater à porta. Dessa forma, o único produto desse ensaio amador de big bang é o gosto verde de bílis.
São cumulativos os efeitos. Assim, a nuvem espessa de espera e medo só incha, sem sinais de explodir, apenas com a graça de ameaçar. É provável que nunca vá embora. Em casos extremos o processo só é acelerado, e anzóis polidos agarram sem aviso as quinas das sobrancelhas.
Mas todo grande baque tem sua beleza. Se o primeiro é de supetão, cheio de luzes e orquestras, que de um segundo para o outro expele todos os gêneros de substâncias e movimenta multidões para organizá-las, o segundo é uma refeição real com muitos garfos. Entre uma entrada e uma terrina, um par de dentes miúdos do peixe felino do rio perfura ora um braço ora um tornozelo. Sem pressa.
E na calma deste incomum big bang é possível se acostumar à dormência das mordidas se descompassando em agradável pulsação. É possível, aqui, ficar livre de todo o orgulho, amor próprio e tudo o mais que deixa a alma íntegra e coesa, para que ela vire água e se molde confortavel entre as pedras que preguiçosamente surgiram daquele big bang.
Escrito por Mariana às 20h19
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| Putz, estou com este blog há quatro anos.
E ainda falo “putz”.
Pra vocês verem que colocar a minha idade aqui é algo totalmente inútil. Primeiro porque provavelmente ficarei mais de um ano sem atualizar isto aqui, fazendo vocês pensarem que eu ainda tenho 18 anos, e segundo porque, putz, ninguém com a minha idade ainda escreve o que fala.
De qualquer forma, meu nome ainda é Mariana, ainda finjo escutar somente rock e ainda pago recompensas para quem achar meu balde de lego perdido no verão de 1995. Algumas coisas mudaram: descobri como mudar o template do blog, mas preferi deixar assim. Antes, eu queria por tudo mudar, mas não sabia como. As coisas mudaram.
Sejam bem vindos ao blog, que tem esse nome porque houve um tempo em que estava na moda usar palavras sonoramente feias, mas que denotassem uma espécie de sátira inteligente. Sim, eu sei que esta é uma das coisas que deveriam mudar, assim como o template.
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