The A Word
O único movimento que o impedia de ser denunciado como réplica humana em cera muito, muito, amarelada, era um reflexo em seus olhos, de seus próprios dedos desmassificados pela velocidade com que vasculhava uma pasta sanfonada rotulada letra A.
Foi na divisa entre ARS e ARU que parou.
E outros dois indicativos medíocres indicaram, de novo, que não era uma imitação de ser humano.
Tais indicativos foram: um franzir de cenho e um piscar metódico de olhos, daqueles em que um olho pisca primeiro para só depois o outro fazê-lo; é uma técnica de alerta, para que em nenhum milésimo de segundo ele ficasse alheio do que acontecia ao redor.
E, definitivamente, tais gestos não eram necessários, pois o cômodo se situava em algum anti-lugar, muito distante de movimentos. E o que continha na ficha encontrada entre os compartimentos ARS e ARU não era lá digno de qualquer expressão facial, naqueles tempos.
O que ele segurava ali, na luz amarela proveniente de uma lâmpada, escurecida pelo tempo de desuso, era apenas um nome, que tanto podia ser de um estabelecimento excêntrico como de uma disciplina escolar.
Bom, isto não significava coisa alguma, pelo menos não para exemplares autênticos de seres humanos. Isto é, aqueles que jamais chegariam a cômodos desse gênero, e sequer se incomodariam em procurar horas a fio por uma ficha de escrever notas. E que, acima de tudo isso, não saberiam diferenciar aquela palavra de nome próprio, disciplina escolar ou loja de pincéis.
De qualquer forma, para a figura amarelada, a ficha de escrever notas não deveria ser deixada à mercê de olhos que piscam simultaneamente ou de lugares que se auto-degeneram pelo desuso. Assim, a embolsou, depois de tê-la comprimido entre duas folhas de madeira e as colocado dentro de um envelope de tamanho apropriado.
Desligou a lâmpada, para que esta voltasse ao seu plano de escurecer-se para sempre, e foi saindo pela porta de correr, que dava num porão úmido, cheio de latas e artefatos de pesquisa debaixo de lençóis, onde poeira e ocasionais restos alados de inseto surgiam e desapareciam nos trechos de luz solar que vazava pelas frestas da cobertura de madeira do aposento subterrâneo.
Como dito, o que se entendia por movimento estava longe. E a falta do que ver não exigia tanto esforço das pestanas. Mesmo assim, refez o percurso de saída sem sair um milímetro do manual que todos os profissionais em invadir salas de documentos sigilosos têm.
Uma vez lá em cima, pôde desfranzir o cenho e exibir mais uma boa meia dúzia de gestos parecidos com respirar fundo, afrouxar a gola da camisa, descansar os ombros, coçar o nariz, limpar os dentes com a língua, correr os dedos pelos cabelos, segurando o chapéu com a outra mão, para recolocá-lo imediatamente e ocultar a calvície.
Já distante, em meio a uma grande massa de possíveis réplicas macilentas humanas, onde ninguém notaria o piscar desajustado de olhos, retirou do paletó o seu troféu, escrito à mão, com traços que não se ativeram à estética. Uma única ficha de escrever notas, com um nome controverso em tinta porosa, com marcas de ter sido soprada antes de secar completamente, cujo significado havia se perdido junto com a vitalidade da lâmpada e dos insetos, cujas asas ainda passeavam pelas mirradas correntes de ar. Lia-se: Arte.
Escrito por Mariana às 22h52
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|