E às vezes a gente se encanta com aquelas substâncias saídas de aviões
Há tempos que venho fazendo um meticuloso estudo acerca daqueles que moldam as nuvens. E tal estudo se resume em horas sobre a grama, de barriga pra cima, com um copo de qualquer coisa ao lado.
E que trabalho! Admiro-me com a técnica subliminar de ir soprando com os próprios ares as quinas rasgadas das nuvens, até que se consiga uma rechonchuda borda, pronta para ser reproduzida em alguma ilustração infantil.
Me admira também o espírito de competição que paira à mesa do almoço, quando todos param na sombra, com suas térmicas, e começam a contar vantagem uns sobre os outros, afirmando que “adivinharam mais nuvens minhas hoje!”, “ora qual, qualquer um saberia que aquilo era um elefante!”. Às vezes era preciso apartar discussões desse calibre.
Prepotências à parte, eles são louváveis. Numa das pesquisas de campo, em particular, foquei-me na ala oeste do céu da minha cidade. Eles dividem suas tarefas da seguinte forma: uma vez por dia, um moldador de nuvem desce com alguns apetrechos, se posiciona no bairro central e de lá manda coordenadas, estabelecendo o que é norte e o que é sul, de acordo com sua perspectiva. No dia seguinte tudo muda, pois no fim das contas ninguém tem a mesma perspectiva.
De qualquer modo, naquele dia em especial o até então Leste virou Oeste, e de um Bosque em particular nesta banda era possível distinguir, lá no alto, um par de pés, com dedos muito juntos, de quem tenta se manter no chão a todo custo, levantando um grande peso com as mãos, no alto da cabeça. Isto foi logo nas primeiras horas da manhã.
Lá pelo meio dia os pés já estavam revestidos por sandálias e mostravam-se numa posição estranha, um virado para o outro. No início da tarde percebi que se posicionavam daquele jeito porque os joelhos estavam quase se encontrando, tamanho era o peso carregado, tamanha era a vontade de estabelecer maior aderência na superfície.
E o desenho apresentava um quê de holografia, o que me fez não arredar as costas do chão.
Lá pelo pôr do sol, a figura estava pela altura do peito, e isso me angustiou, pois é nesse horário que uma sirene bate em algum lugar e as nuvens se vão todas, junto com os homens e suas térmicas.
Mas o corpo que vinha se formando desde o alvorecer não se foi, apenas modificou-se um pouco: a parte que eu já conhecia, as pernas arqueadas, o peito inchado de ar, as veias do pescoço prestes a estourar, sumiram. E os contornos do rosto e dos braços erguidos começaram a surgir, mas não em nuvem.
O moldador, desprovido da matéria prima algodão, passou a esculpir a imagem no calor alaranjado, assim, as linhas, apesar de claras, ficaram um pouco turvas.
Percebi certa pressa no término. O que foi bom, pois não agüentava o suspense acerca do que aquela criatura sofrida carregava desde tão cedo.
Por fim, e segundos antes do céu ser tomado por estrelas de uma vez, surgiu o rosto, mirando além das palmas das mãos trincadas, seguidas por dedos à beira da morte de tanta força, empurrando um teto espelhado, que enquanto o refletia, parecia pressioná-lo a cada segundo.
O efeito de espelho não poderia ser mais bem obtido com as nuvens do que com o calor, por isto entendi porque o moldador esperou tanto para revelar o que o seu David de nuvem carregava desde tão cedo...
P.S.: e pensar que muitos pensaram "puxa, ela tá demorando tanto. Aposto que vem coisa boa...!". Ai, eu morro de rir.
Escrito por Mariana às 19h34
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