Os Clássicos
Vai completar quatro anos que adio pela terceira vez o desafio de largar a ficção pueril e partir para os clássicos. Estava quase lá quando o Dan Brown surgiu na praça e, de quebra, minha professora de Língua Portuguesa me emprestou um Agatha Christie dela.
Digo que estava bem perto de conseguir porque isto foi no meu aniversário de quinze anos, quando meus pais me presentearam com um exemplar de coleção de Os Miseráveis. Ocorre que naquela ocasião também recebi algumas cópias do Sidney Sheldon e da Meg Cabot (O Diário da Princesa) de presente. E mais uma vez tive de parafrasear Mark Twain, acerca dos clássicos: são os melhores, mas ninguém lê. Logo, afirmo com convicção - ainda que às cegas - que Victor Hugo está no topo da cadeia literária mundial.
Cheguei a mentir algumas vezes, estritamente para pessoas as quais queria desesperadamente impressionar, que apesar de ter lido Os Miseráveis, não era a pessoa certa para comentar sobre, pois eu começava a chorar só de lembrar da Fantine nas sarjetas. Hoje está claro por que essas pessoas não se impressionaram.
A verdade é que o mais perto - geograficamente, inclusive - a chegar de um clássico foi, certa vez, em que minha mãe lia Os Maias e espiei por cima do ombro dela o nome Tobias. Então, resolvi chamar meu cachorro assim.
Até hoje o Tobias enche os olhos d'água sempre que parto pra uma viagem de carro ou para a fila do banco/dentista com um exemplar com capa holográfica de Artemis Fowl ou Harry Potter sob o braço. Enquanto isso, os dois volumes da vida do Jean ValJean & a Rev. Francesa jazem empoeirados entre os puídos de tanto manuseio "O Apanhador no Campo de Centeio", "Tomates Verdes Fritos" e "A Sangue Frio".
Há quem diga que cada um tem seus próprios clássicos. Eu vou contra esta opinião, senão daqui a pouco teremos versões encadernadas de James Bond tirando sarro de "Os Sertões". No fim das contas tenho é inveja de quem já leu os clássicos; talvez por consolo, defendo a tese de que cada um tem o direito de consagrar, ao menos para si, um clássico.
O meu seria “Tomates Verdes Fritos”. Admito que não poderia haver um título menos apropriado para a categoria, isto porque ninguém nunca ouviu falar da autora (Fannie Flag); segundo: é o tipo de enredo que não ficaria bem em capa dura; terceiro, e sobretudo, porque rodaram um filme a respeito, o qual ficou tão bom que apenas um bobo perderia tempo para ler o livro.
Bom, eu fui boba o suficiente, ou estava com muito tempo de sobra. O fato é que não me arrependi. Apesar de estar sozinha nessa defesa, já que nenhuma das dez pessoas para quem recomendei leu, continuo na tentativa de transformar “Tomates” num clássico.
Eu não diria que Fannie Flag tem a mão leve da Clarisse Lispector ou a preocupação de denúncia do Machado de Assis. Tudo o que posso dizer - ou pelo menos o que consigo - é que ela encontrou uma forma fórmula estética e cognitiva de contar a história de mais ou menos uma dúzia de personagens únicas, cheias de consistência e doçura, as quais, com todas as peculiaridades, residem em conjunto em cada singular indivíduo vivo.
Não se vê muitas tiragens da obra em sebos ou livrarias, o que me faz acreditar, com um pouco de inocência, que isso se deve ao fato de que ninguém quer se desfazer de seus exemplares ou que eles não são divulgados por puro egoísmo, pois após terminar os capítulos, recai sobre o leitor uma deliciosa sensação de segurar um filhotinho de cachorro, sabendo que se ninguém souber que ele existe, ele nunca ficará adulto, e, sim, um filhotinho pra sempre.
Enfim, o fato é que eu nem deveria estar aqui bajulando “Tomates Verdes Fritos”, pois morro de chorar só de lembrar o que aconteceu com a Ruth.
Escrito por Mariana às 15h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|