Idade da Pedra
Sentei-me para escrever o que há muito não me atormentava: a impaciência. Faz tempo que ela não me rende bons parágrafos de espera, pois tenho tido tudo bem na mão e no estalar de dedos. Só agora resolvi – ou precisei – fazer uns investimentos de longo prazo. Deixei recados para amigos, e conto os segundos pra chegar uma resposta. Comecei a ler o que eles chamam de Clássicos e conto os minutos para entender o que li e reli há um mês. Isso me leva a perceber que a impaciência não era o que rendia estrofes e versos. Querer era o que me fazia dissertar por horas e horas. Há um tempo que não quero nada, só agora, com sucessivas perdas, a impaciência voltou. Voltaram as contagens regressivas, o roer de unhas e o roer de sono. Apostei com meus botões que o que me faria voltar a garimpar as palavras seria tropeçar em algum fato catastrófico, que alteraria todo o curso da vida. Mas descobri que a mais ordinária pedrinha é o suficiente para alterar o rumo das coisas. Esse dias para trás, despedi-me dos meus amigos imaginários. Despedida que estava sendo ensaiada há uns bons anos, mas que devido à negligência de colocar em prática esse adeus, parece que foi ontem que acenava aos meus amigos alados, com nossas lembranças embrulhadas numa trouxa. Apostaram entre si que eu ficaria bem, pois deixavam comigo uma pilha de conselhos. Perderam a aposta. O homem ainda precisará dormir e acordar milhões de vezes para deixar de sentir saudade e colocá-la em seus poemas. Vez por outra, nos cantos vazios da mente, encontro objetos etéreos dos meus amigos e tento sentir ódio por causa de seu abandono, mas recordo que também não foi fácil para eles, porque não sou uma amiga de se jogar fora. E, além disto, eles deixaram bons episódios na memória. Ao invés de rancor, tudo o que consigo é sentir aquele nostálgico conforto sublimado em sonhos. E exclamam: ora, mas isto é mais que uma pedrinha. É um paralelepípedo! Não. É uma pedrinha. Daquela espécie que os homens levam impacientes séculos para encontrar, chamam de diamante e guardam em algures do peito.
Escrito por Mariana às 20h34
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