The A Word II
Fazia um tempo que os braços não se transformavam em borboletários, desses que, além das borboletas, correm riachos velozes, vento de frentes frias e manadas de mamutes. Fazia um tempo que seus braços não se atrapalhavam e deixavam as coisas cair. E sua mente seguia o mesmo rumo. Rumo sem norte e aquém de todas as bússolas. Numa dessas revistas de paleontologia, descreveram o que vinha sentindo como sendo amor. Numa revista de paleontologia porque a descrição, segundo a reportagem, estava numa dessas cavernas sem tempo e sem lugar. E foi descrito ao lado de homens com lanças e animais extintos. Talvez pareça estranho o amor ter sido desenhado tão próximo de imagens tão brutas, mas para alguns, isto faz muito sentido. Dizem que o amor está em um ponto bem elevado e metafísico. Cabe a nós, então, investigar porque ele decai ao ponto dos nervos, ao ponto em que o corpo se curva de tanta dor. Ao ponto em que a respiração se torna uma piada e a fala uma lenda. Talvez, quando os homens descobrirem que o amor, as lanças e os animais extintos não se tratavam de desenhos separados, tudo fique mais claro. E talvez o que ficará claro é que o homem não sabe amar.
Escrito por Mariana às 18h21
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Medo da Morte
Mês passado foi minha vez de passar por uma daquelas situações de auto sabotagem em que, na maior das inocências, se revela desconhecer um fenômeno da natureza que, pelo jeito, ensinam às criancinhas da terceira série. O fenômeno da natureza de que falaremos é As Árvores Morrem. Foi assim: no intervalo da aula lá na Nova Acrópole, estava eu passando com uma camiseta de proteja-o-cerrado perto de alguns colegas, quando elogiaram o lindo ipê amarelo da estampa e logo teceram ricos comentários sobre os ipês. Se fosse aquela uma escola qualquer, que ministrasse cursos de espanhol, por exemplo, a conversa teria parado em: “no México, eles chamam o Ipê de primavera..” . Mas estamos falando de uma escola de filosofía, e logo logo o ipê da mina camiseta atingiría seu ponto metafísico e moral. Um dos colegas, contou que os Ipês são árvores que avisam quando vão morrer. Sim, eles morrem. Continuou esse colega que, na época da morte do Ipê ele floresce alguns meses antes. É batata. Ao contrario dos seres humanos, que ficam calejando suas mãos de tanto se agarrarem nas paredes do entre a vida e a morte, os ipês não apenas sabem quando vão morrer, como o fazem tirando uma onda com a senhora de capuz e foice. Depois dessa, secretamente comecei a despedir-me dos ipês na rua e a ficar atenta caso surgisse em mim uma vontade de usar vestidos floridos antes de setembro.
Escrito por Mariana às 07h19
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Rodin
Faz um tempo que ando fazendo um curso de filosofia. Tinha a esperança de que em cinco meses eu estaria livre, com um alvará para sentar no primeiro banco de praça, aconchegar meu punho sobre o queixo e virar uma pedra. Mas, por uma meia dúzia de motivos, acabei ficando por mais um ano e descobrindo que há coisas melhores para o homem se tornar, que não uma pedra. Estou treinando para ser uma montanha, com neve no topo e grutas azuis, que são azuis sem precisar da luz do céu. O fato é que numa das provas havia a velha questão de conhecer-se a si mesmo. Vai ver foi isso que esticou os cinco meses em mais de um ano. Para resolver essa questão de uma vez por todas, fiz-me o mais inocente dos convites: tomar um café. Na verdade, para tomar um balde de açaí (acontece que como ainda sonho em ver um texto meu publicado no Times, procuro usar bebidas e lugares universais), assim, me chamei pra um café, em qualquer lugar com wireless. De qualquer forma fiz esse convite porque é num simples café que conhecemos pessoas que podem se tornar nossos melhores amigos, namorados ou escritoras de Harrys Potters. Conversa vai, conversa vem e não consegui descobrir muito, além de um gosto fenomenal por boa música e grandes feitos da renascença. Descobri o que fazia da vida, como fazia e o que queria fazer. Não consegui descobrir-lhe a idade ou o número de suas roupas, pudera, nem de mim eu consigo arrancar esses dados... Quem era, de onde vinha, para onde e como iria remanesceram um Mistério. Percebi então que meu convite, o café e a conversa mole haviam sido em vão. De tanta frustração a fiz dividir a conta comigo e levar pra casa minha cara emburrada. Foi quando ouvi meu nome para que eu me virasse, e quando o fiz, vi uma menina, vestida de montanha, sentada entre vales. De sua face escorria um rio calmo, que pingava de seu queixo para os ossos do ombro, formando ali o início de uma gruta. Esfreguei os olhos, e assim também fizeram todas as pessoas no local. Em menos de um segundo, a menina tinha desaparecido de entre os vales e da memória de todos, que voltaram aos seus bancos e pensamentos de pedra.
Escrito por Mariana às 13h40
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Idade da Pedra
Sentei-me para escrever o que há muito não me atormentava: a impaciência. Faz tempo que ela não me rende bons parágrafos de espera, pois tenho tido tudo bem na mão e no estalar de dedos. Só agora resolvi – ou precisei – fazer uns investimentos de longo prazo. Deixei recados para amigos, e conto os segundos pra chegar uma resposta. Comecei a ler o que eles chamam de Clássicos e conto os minutos para entender o que li e reli há um mês. Isso me leva a perceber que a impaciência não era o que rendia estrofes e versos. Querer era o que me fazia dissertar por horas e horas. Há um tempo que não quero nada, só agora, com sucessivas perdas, a impaciência voltou. Voltaram as contagens regressivas, o roer de unhas e o roer de sono. Apostei com meus botões que o que me faria voltar a garimpar as palavras seria tropeçar em algum fato catastrófico, que alteraria todo o curso da vida. Mas descobri que a mais ordinária pedrinha é o suficiente para alterar o rumo das coisas. Esse dias para trás, despedi-me dos meus amigos imaginários. Despedida que estava sendo ensaiada há uns bons anos, mas que devido à negligência de colocar em prática esse adeus, parece que foi ontem que acenava aos meus amigos alados, com nossas lembranças embrulhadas numa trouxa. Apostaram entre si que eu ficaria bem, pois deixavam comigo uma pilha de conselhos. Perderam a aposta. O homem ainda precisará dormir e acordar milhões de vezes para deixar de sentir saudade e colocá-la em seus poemas. Vez por outra, nos cantos vazios da mente, encontro objetos etéreos dos meus amigos e tento sentir ódio por causa de seu abandono, mas recordo que também não foi fácil para eles, porque não sou uma amiga de se jogar fora. E, além disto, eles deixaram bons episódios na memória. Ao invés de rancor, tudo o que consigo é sentir aquele nostálgico conforto sublimado em sonhos. E exclamam: ora, mas isto é mais que uma pedrinha. É um paralelepípedo! Não. É uma pedrinha. Daquela espécie que os homens levam impacientes séculos para encontrar, chamam de diamante e guardam em algures do peito.
Escrito por Mariana às 20h34
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Os Clássicos
Vai completar quatro anos que adio pela terceira vez o desafio de largar a ficção pueril e partir para os clássicos. Estava quase lá quando o Dan Brown surgiu na praça e, de quebra, minha professora de Língua Portuguesa me emprestou um Agatha Christie dela.
Digo que estava bem perto de conseguir porque isto foi no meu aniversário de quinze anos, quando meus pais me presentearam com um exemplar de coleção de Os Miseráveis. Ocorre que naquela ocasião também recebi algumas cópias do Sidney Sheldon e da Meg Cabot (O Diário da Princesa) de presente. E mais uma vez tive de parafrasear Mark Twain, acerca dos clássicos: são os melhores, mas ninguém lê. Logo, afirmo com convicção - ainda que às cegas - que Victor Hugo está no topo da cadeia literária mundial.
Cheguei a mentir algumas vezes, estritamente para pessoas as quais queria desesperadamente impressionar, que apesar de ter lido Os Miseráveis, não era a pessoa certa para comentar sobre, pois eu começava a chorar só de lembrar da Fantine nas sarjetas. Hoje está claro por que essas pessoas não se impressionaram.
A verdade é que o mais perto - geograficamente, inclusive - a chegar de um clássico foi, certa vez, em que minha mãe lia Os Maias e espiei por cima do ombro dela o nome Tobias. Então, resolvi chamar meu cachorro assim.
Até hoje o Tobias enche os olhos d'água sempre que parto pra uma viagem de carro ou para a fila do banco/dentista com um exemplar com capa holográfica de Artemis Fowl ou Harry Potter sob o braço. Enquanto isso, os dois volumes da vida do Jean ValJean & a Rev. Francesa jazem empoeirados entre os puídos de tanto manuseio "O Apanhador no Campo de Centeio", "Tomates Verdes Fritos" e "A Sangue Frio".
Há quem diga que cada um tem seus próprios clássicos. Eu vou contra esta opinião, senão daqui a pouco teremos versões encadernadas de James Bond tirando sarro de "Os Sertões". No fim das contas tenho é inveja de quem já leu os clássicos; talvez por consolo, defendo a tese de que cada um tem o direito de consagrar, ao menos para si, um clássico.
O meu seria “Tomates Verdes Fritos”. Admito que não poderia haver um título menos apropriado para a categoria, isto porque ninguém nunca ouviu falar da autora (Fannie Flag); segundo: é o tipo de enredo que não ficaria bem em capa dura; terceiro, e sobretudo, porque rodaram um filme a respeito, o qual ficou tão bom que apenas um bobo perderia tempo para ler o livro.
Bom, eu fui boba o suficiente, ou estava com muito tempo de sobra. O fato é que não me arrependi. Apesar de estar sozinha nessa defesa, já que nenhuma das dez pessoas para quem recomendei leu, continuo na tentativa de transformar “Tomates” num clássico.
Eu não diria que Fannie Flag tem a mão leve da Clarisse Lispector ou a preocupação de denúncia do Machado de Assis. Tudo o que posso dizer - ou pelo menos o que consigo - é que ela encontrou uma forma fórmula estética e cognitiva de contar a história de mais ou menos uma dúzia de personagens únicas, cheias de consistência e doçura, as quais, com todas as peculiaridades, residem em conjunto em cada singular indivíduo vivo.
Não se vê muitas tiragens da obra em sebos ou livrarias, o que me faz acreditar, com um pouco de inocência, que isso se deve ao fato de que ninguém quer se desfazer de seus exemplares ou que eles não são divulgados por puro egoísmo, pois após terminar os capítulos, recai sobre o leitor uma deliciosa sensação de segurar um filhotinho de cachorro, sabendo que se ninguém souber que ele existe, ele nunca ficará adulto, e, sim, um filhotinho pra sempre.
Enfim, o fato é que eu nem deveria estar aqui bajulando “Tomates Verdes Fritos”, pois morro de chorar só de lembrar o que aconteceu com a Ruth.
Escrito por Mariana às 15h51
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Estou com saudade
de me perder em pensamento
de fitar uma quina do quarto
por tempos
até que os móveis aumentem
se tornem adereços de gigantes.
Estou com saudade
porque agora onde quer que entre
vejo gavetas tão pequenas
e o teto quase toca o chão
Os cantos só encolhem e apertam.
Estou com saudade
porque agora é impossível fitar por tempos uma só quina
quando mil outras vão surgindo.
E os lugares antes tão imensos
com seus imensos arabescos
afunilaram-se.
Não passam mais de um cubículo.
A distância entre meus olhos e o chão aumentou,
no entanto.
Mas das antigas quinas
tudo que vejo é o topo.
Escrito por Mariana às 00h59
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E às vezes a gente se encanta com aquelas substâncias saídas de aviões
Há tempos que venho fazendo um meticuloso estudo acerca daqueles que moldam as nuvens. E tal estudo se resume em horas sobre a grama, de barriga pra cima, com um copo de qualquer coisa ao lado.
E que trabalho! Admiro-me com a técnica subliminar de ir soprando com os próprios ares as quinas rasgadas das nuvens, até que se consiga uma rechonchuda borda, pronta para ser reproduzida em alguma ilustração infantil.
Me admira também o espírito de competição que paira à mesa do almoço, quando todos param na sombra, com suas térmicas, e começam a contar vantagem uns sobre os outros, afirmando que “adivinharam mais nuvens minhas hoje!”, “ora qual, qualquer um saberia que aquilo era um elefante!”. Às vezes era preciso apartar discussões desse calibre.
Prepotências à parte, eles são louváveis. Numa das pesquisas de campo, em particular, foquei-me na ala oeste do céu da minha cidade. Eles dividem suas tarefas da seguinte forma: uma vez por dia, um moldador de nuvem desce com alguns apetrechos, se posiciona no bairro central e de lá manda coordenadas, estabelecendo o que é norte e o que é sul, de acordo com sua perspectiva. No dia seguinte tudo muda, pois no fim das contas ninguém tem a mesma perspectiva.
De qualquer modo, naquele dia em especial o até então Leste virou Oeste, e de um Bosque em particular nesta banda era possível distinguir, lá no alto, um par de pés, com dedos muito juntos, de quem tenta se manter no chão a todo custo, levantando um grande peso com as mãos, no alto da cabeça. Isto foi logo nas primeiras horas da manhã.
Lá pelo meio dia os pés já estavam revestidos por sandálias e mostravam-se numa posição estranha, um virado para o outro. No início da tarde percebi que se posicionavam daquele jeito porque os joelhos estavam quase se encontrando, tamanho era o peso carregado, tamanha era a vontade de estabelecer maior aderência na superfície.
E o desenho apresentava um quê de holografia, o que me fez não arredar as costas do chão.
Lá pelo pôr do sol, a figura estava pela altura do peito, e isso me angustiou, pois é nesse horário que uma sirene bate em algum lugar e as nuvens se vão todas, junto com os homens e suas térmicas.
Mas o corpo que vinha se formando desde o alvorecer não se foi, apenas modificou-se um pouco: a parte que eu já conhecia, as pernas arqueadas, o peito inchado de ar, as veias do pescoço prestes a estourar, sumiram. E os contornos do rosto e dos braços erguidos começaram a surgir, mas não em nuvem.
O moldador, desprovido da matéria prima algodão, passou a esculpir a imagem no calor alaranjado, assim, as linhas, apesar de claras, ficaram um pouco turvas.
Percebi certa pressa no término. O que foi bom, pois não agüentava o suspense acerca do que aquela criatura sofrida carregava desde tão cedo.
Por fim, e segundos antes do céu ser tomado por estrelas de uma vez, surgiu o rosto, mirando além das palmas das mãos trincadas, seguidas por dedos à beira da morte de tanta força, empurrando um teto espelhado, que enquanto o refletia, parecia pressioná-lo a cada segundo.
O efeito de espelho não poderia ser mais bem obtido com as nuvens do que com o calor, por isto entendi porque o moldador esperou tanto para revelar o que o seu David de nuvem carregava desde tão cedo...
P.S.: e pensar que muitos pensaram "puxa, ela tá demorando tanto. Aposto que vem coisa boa...!". Ai, eu morro de rir.
Escrito por Mariana às 19h34
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The A Word
O único movimento que o impedia de ser denunciado como réplica humana em cera muito, muito, amarelada, era um reflexo em seus olhos, de seus próprios dedos desmassificados pela velocidade com que vasculhava uma pasta sanfonada rotulada letra A.
Foi na divisa entre ARS e ARU que parou.
E outros dois indicativos medíocres indicaram, de novo, que não era uma imitação de ser humano.
Tais indicativos foram: um franzir de cenho e um piscar metódico de olhos, daqueles em que um olho pisca primeiro para só depois o outro fazê-lo; é uma técnica de alerta, para que em nenhum milésimo de segundo ele ficasse alheio do que acontecia ao redor.
E, definitivamente, tais gestos não eram necessários, pois o cômodo se situava em algum anti-lugar, muito distante de movimentos. E o que continha na ficha encontrada entre os compartimentos ARS e ARU não era lá digno de qualquer expressão facial, naqueles tempos.
O que ele segurava ali, na luz amarela proveniente de uma lâmpada, escurecida pelo tempo de desuso, era apenas um nome, que tanto podia ser de um estabelecimento excêntrico como de uma disciplina escolar.
Bom, isto não significava coisa alguma, pelo menos não para exemplares autênticos de seres humanos. Isto é, aqueles que jamais chegariam a cômodos desse gênero, e sequer se incomodariam em procurar horas a fio por uma ficha de escrever notas. E que, acima de tudo isso, não saberiam diferenciar aquela palavra de nome próprio, disciplina escolar ou loja de pincéis.
De qualquer forma, para a figura amarelada, a ficha de escrever notas não deveria ser deixada à mercê de olhos que piscam simultaneamente ou de lugares que se auto-degeneram pelo desuso. Assim, a embolsou, depois de tê-la comprimido entre duas folhas de madeira e as colocado dentro de um envelope de tamanho apropriado.
Desligou a lâmpada, para que esta voltasse ao seu plano de escurecer-se para sempre, e foi saindo pela porta de correr, que dava num porão úmido, cheio de latas e artefatos de pesquisa debaixo de lençóis, onde poeira e ocasionais restos alados de inseto surgiam e desapareciam nos trechos de luz solar que vazava pelas frestas da cobertura de madeira do aposento subterrâneo.
Como dito, o que se entendia por movimento estava longe. E a falta do que ver não exigia tanto esforço das pestanas. Mesmo assim, refez o percurso de saída sem sair um milímetro do manual que todos os profissionais em invadir salas de documentos sigilosos têm.
Uma vez lá em cima, pôde desfranzir o cenho e exibir mais uma boa meia dúzia de gestos parecidos com respirar fundo, afrouxar a gola da camisa, descansar os ombros, coçar o nariz, limpar os dentes com a língua, correr os dedos pelos cabelos, segurando o chapéu com a outra mão, para recolocá-lo imediatamente e ocultar a calvície.
Já distante, em meio a uma grande massa de possíveis réplicas macilentas humanas, onde ninguém notaria o piscar desajustado de olhos, retirou do paletó o seu troféu, escrito à mão, com traços que não se ativeram à estética. Uma única ficha de escrever notas, com um nome controverso em tinta porosa, com marcas de ter sido soprada antes de secar completamente, cujo significado havia se perdido junto com a vitalidade da lâmpada e dos insetos, cujas asas ainda passeavam pelas mirradas correntes de ar. Lia-se: Arte.
Escrito por Mariana às 22h52
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De quando se olha lá atrás
Num desses assaltos de independência, que só têm a ver com a pouca idade e com nenhum tico de habilidade para prever um futuro cheio de dores nas costelas exatamente por causa desses assaltos, resolvi seguir para a faculdade de bicicleta. Rejeitar carona do pai e passes de ônibus pela metade do preço (devido à condição de estudante).
Acordar antes dos galos e ver no percurso apenas o pessoal da construção civil e mães sofredoras arrastando crianças sonolentas para portas de escolas ainda fechadas. Um singelo ato de auto-flagelação para mim, cujo maior dilema nunca ultrapassou “manteiga ou geléia no pão?”.
E nas primeiras vezes em que parti cidade acima, só de companhia uma certa neblina encardida e as primeiras fornadas das padarias, só conseguia pensar em como meus pais tinham se desfeito do (quase) meu fusca amarelo, o qual me deixava ter mais uma hora de sono, algum status social e um cheiro melhor do que aquele de quem chega de bicicleta.
Nada muito distante da geléia de da manteiga no pão.
Então, me perguntei se toda aquela gente minguada nas primeiras horas da manhã faziam parte da ladainha de fazer o diabo quando se completa dezoito anos, porque, no fim do dia, a lembrança delas me provocava efeito igual ao das bebedeiras desenfreadas e viradas de noite em qualquer anti lugar imundo entre-ruas. Uma dor de cabeça lascada.
Oh, sim, elas eram a parte principal. Elas estavam prontas pra me largarem na vida com um monte de seqüelas e planos bês para mudar a política. Planos para engrossar a voz no meio de um bando de gente que só viria a acordar daqui a cinco horas. Planos para recuperar o fusca e dar carona à mãe e suas sacolas.
E, nesse meio tempo, o assalto de independência teve de descer do cavalo branco e atravessar o rio a pé, pois, de repente, meus maiores planos dependiam de quem eu sequer conhecia. A começar por mim mesma.
Escrito por Mariana às 22h41
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Ca-bum!
Não é na realidade um big bang, igual quando num feriado manso na beira do rio o ente querido próximo cai e é devorado por piranhas. Um acontecimento desses é big bang legítimo; se dele não surge pelo menos um planeta, ele faz surgir efeitos outrossim consideráveis, tais como sentimentos de união e solidariedade, que nunca deram as caras antes.
Mas quando essa outra espécie de big bang – que se distancia bastante da original – acontece, bem, nenhuma Terra aparece, e tampouco o sentimento que for.
É mais uma regurgitação bocejante de um Odin indigesto, em câmera lenta. Muito devagar o cenho adquire fissuras permanentes e as quinas das sobrancelhas cismam em escorrer desesperadamente têmporas abaixo.
A cada dia um espasmo que equivale a uma só mordida dos peixes que comeram o parente querido. Mas é preciso mais que uma dentada para a solidariedade bater à porta. Dessa forma, o único produto desse ensaio amador de big bang é o gosto verde de bílis.
São cumulativos os efeitos. Assim, a nuvem espessa de espera e medo só incha, sem sinais de explodir, apenas com a graça de ameaçar. É provável que nunca vá embora. Em casos extremos o processo só é acelerado, e anzóis polidos agarram sem aviso as quinas das sobrancelhas.
Mas todo grande baque tem sua beleza. Se o primeiro é de supetão, cheio de luzes e orquestras, que de um segundo para o outro expele todos os gêneros de substâncias e movimenta multidões para organizá-las, o segundo é uma refeição real com muitos garfos. Entre uma entrada e uma terrina, um par de dentes miúdos do peixe felino do rio perfura ora um braço ora um tornozelo. Sem pressa.
E na calma deste incomum big bang é possível se acostumar à dormência das mordidas se descompassando em agradável pulsação. É possível, aqui, ficar livre de todo o orgulho, amor próprio e tudo o mais que deixa a alma íntegra e coesa, para que ela vire água e se molde confortavel entre as pedras que preguiçosamente surgiram daquele big bang.
Escrito por Mariana às 20h19
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Dias Pequenos
São dias que merecem uma convenção universal dos meteorologistas, com o único objetivo de estabelecer uma quinta estação. Uma estação só de dias amenos.
Palestras, seminários e cálculos, a fim de espremer um pouco o impopular outono, podar aqui e ali a enjoativa primavera e quietar o facho do verão. Que deixassem, pois, o inverno.
Que deixassem os dias frios, para que os dias amenos não fossem os mais amaldiçoados.
Nos dias amenos, que são fracos, os deuses se aproveitam da morbidez para se ocuparem com afazeres leves.
Nos dias amenos, chaves perdidas reaparecem, assim como bilhetes velhos e amigos magrinhos da infância.
Nos dias amenos, qualquer suspiro vira enfermidade. E tanto para o arranhão quanto para o coma, se utiliza a menos nobre das panacéias: o sono selvagem. O sono cheio de espasmos e hipóteses de nunca mais acordar.
Se aquela convenção acontecesse, se uma quinta estação caísse no calendário, prometendo somente dias lerdos, situações como a que eu vou contar aconteceriam mais vezes...
Num dia ameno, inalei por acidente algo que eles usam para desinfetar superfícies. E para quem não conhece o efeito, falo da sensação de consecutivos socos no estômago desavisado, dados por uma criança gorducha.
Engoli litros de água, esquecendo-me de que estava num dia ameno e só havia uma medida a tomar. Assim, caí no melhor da embriaguez soporífica.
Quase fui cego por uma seqüência de acontecimentos em perfeita ordem e clareza – nada usual nos meus sonhos, diga-se.
Vi as coisas exatamente como eram... meu ordinário existir. De fato, o que vi foi uma suposição muito fiel do que eu faria assim que acordasse: um pequeno almoço e o conserto de uma cantoneira.
Sonhei que eu era eu. Nu e cru. Com direito às dores habituais no tornozelo, sobretudo na hora de agachar para medir a altura da cantoneira. Sem delongas, sem efeitos especiais; um sonho, que não passava de uma previsão de tempo.
Ajeitei-me esperto no sofá onde tinha desabado, igual quando se acorda de uma vez ao sonhar com queda livre e tropeços.
Nos dias amenos, que são um bocado anêmicos, os sonhos com poder voar dão lugar àqueles sem magia, com cara de documentário.
Escrito por Mariana às 20h21
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Desde já, pega a sua caneca de estanho, pendura no casaco puído e faça da figurinha do Pelé o seu escaravelho mágico. Volte no tempo e por lá fique, porque agora tudo anda confuso por cá. Aproveite que ainda pode se confinar no seu aposento de pensamento minúsculo que só cabe um. De qualquer maneira, faça uma bainha para as suas palavras, e coloque rubis nos punhos delas. Nada mais apropriado. Aguarde na porta do aeroporto por um bilionário que morra de saudades da barba e das sandálias, e que ainda não tenha se perdoado por ter traído seus ímpetos, trocando-os por uma gravata, e que por isto carregue o cenho sempre com aspecto de cérebro. Quando ele passar, comece a cantar “California Dreaming”, a cutucar sua caneca de estanho, a guisa de back vocal. Recolha sua gorjeta obesa e dê-lhe a figurinha do Pelé, para que seu próprio cenho se desenrole, por tê-la roubado de um menino
Escola de gritos
Escarros suspiros aliterados. Expelidos sem jeito e atropelados. Escassos suspiros verdadeiros. Escassos suspiros ouvidos. Mirrados cochichos que contam histórias pequenas de grandes feitos. Meros espasmos de sonho congestionado. Rabiscados esboços de sorriso desbotado. Espirros de alívio de vírus acumulado. Ensaio de apego ao brinquedo de lado. Ensaio de olhar focalizado no não sei aonde no além de suspiro aliviado. No escarro cochicho coagulado. Esbarros no desconhecido imaginado. Tropeços nos pés de pluma. Tropeços nas letras mirradas postas ao léu nas imagens faladas. Escamas caindo de alma desarticulada. Pendendo de sonhos sinestesiados. Espalham na ida ao castelo queimado. Seqüestradas pelo vento. Confundem os olhos já embaraçados.
Escarros suspiros Sem nenhum motivo. Sem lenço para afastar os escarros pesares. Pesados choros pelo brinquedo quebrado. Pedaços de sonho com o vento imaginado. Na escola de gritos desesperados... com o vento imaginado.
Escrito por Mariana às 14h12
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Desculpa, mas agora eu não mexo mais com metais
Capturado de todo grado pelas influências de fantasia de sua infância, acabou por sonhar com uma realidade bem seqüencial e cheia das metonímias, assim como a dos desenhos animados, onde a personagem tinha sempre as mesmas roupas e em poucas palavras, gestos ou rabiscos podia-se conhecer seu cerne físico e intelectual. Era uma vida simples e que funcionava.
Mantinha uma quantidade estranhíssima de objetos no bolso, em sua maioria penduricalhos que viriam a calhar tal qual o cinto de utilidades do herói favorito. Ou assim acreditava, fazendo a mãe ter de remendar os bolsos relaxados uma vez por mês.
Decidiu existir numa órbita em que podia perfeitamente retirar um trator do paletó e ir de bicicleta ao resto do Muro de Berlin. E quando viu estar sozinho nesta, esparramou a mão na testa e começou a desistir.
Muito preocupado com a falta de recrutas e de candidatos dispostos a se contentarem com o posto de Robin, foi andar por um desses edifícios com muros de vidro em voga. Tudo o que via era o próprio reflexo, passando em cinematografia. Está aí alguém interessante e que levaria comigo à lua, pensou ele todo Narciso.
Queria mesmo era saber o raio que era si mesmo. Sem lá muita filosofia. Despretensiosamente, sempre se achou muito interessante – quem mais, afinal, perdia tempo com imaginar transporte livre e objetos fantásticos à vontade? Bem, muitos seres à margem do sociável por aí, de fato, mas ao seu alcance, só o habitante ambulante dos muros de vidro.
Por isto, tinha uma vontade débil de se conhecer e ser seu próprio amigo. De ir com ele ao parque e à tediosa palestra em japonês, suportando isto de forma aprazível, por estar em boa e permanente companhia e por ter um balão de pensamento planetário pairando sobre o cocuruto.
Mais ou menos aí, percebeu que todos não prestavam (não perto dele, que era o psicólogo, o mestre das idéias e de consolar no sempre de tristeza, e o mapa para as vielas impossíveis).
O mais certo era se retirar, e, por conseguinte retirar todos de sua caderneta de vagas abertas ao cargo de Robin. Só aquele desconhecido parecia capaz de entender, de arrancar ele dos travesseiros para ir ver um filme ou alguma apresentação musical, completamente sozinho (aliás, em sua companhia).
O estranho não demorou muito a ler seus pensamentos e dar opiniões sobre as suas roupas, e deixar que ele o fizesse também. Mas tinham as mesmas preferências, de modo a saírem idênticos e fundidos, de um jeito que quando encontravam conhecidos na rua eles perguntavam: “mas você veio só?”. O que era embaraçoso e o fazia mentir, dizendo que “havia perdido de alguém”. E isto o obrigava a embarcar numa tentativa bestíssima de zangar-se com o suposto novo amigo por ter se afastado, na hora em que ele mais precisava exibir a línguas férteis que não era um solitário!
O que de longe funcionava: enfezar-se com ele estranhamente doía bem mais em sua própria carne. Acordavam já de pazes feitas e no outro dia já revisavam a matéria da prova, liam do mesmo livro e dividiam a gasolina para assistir a “Medos Privados em Lugares Públicos” em desculpa cheia de fiapos soltos para espionarem o vilão de capa no meio do Cerrado.
Não invejava os milhões de casais e grupos risonhos. E isto o preocupou, pois a amizade consigo mesmo era tão forte que lhe fechava os olhos para o que parecia ser a real felicidade: os risos coletivos, os arrebates sonoros e físicos de vida no chão. Chegou a desmentir a tautologia de que amizade é no mínimo dupla, não conseguiu convencer ninguém e passou a desacreditar-se, olhando-se horas no muro vítreo a procura de outras pernas, pois assim teria mais bolsos para carregar mais bugigangas e, um dia, responder sim, quando alguém perguntasse: você tem um martelo de ourivesaria aí?
Escrito por Mariana às 01h02
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Foi mais ou menos ali que acordou, naquele canto mesmo. Confia. Por estes dias, por mais que já não tenha nenhuma marca de corpo na poeira imensa – mas é porque a poeira aqui é insana mesmo. Daqui a pouco a marca do seu sapato vai ser inundada por micro partículas de qualquer coisa; e o próximo que entrar aqui também vai tentar convencer seu acompanhante de que, sim, foi mais ou menos por aqui que você e eu passamos, por aqui mesmo, perto do canto, por aqui onde vão ficar rastros de poeira nova no chão daqui a pouquinho.
Ele acordou e saiu andando, nem adianta procurar sinais de arrastamento. Anda, segue ali por aquela porta, que já está aberta e tem uma luz no final. Não banquemos os corajosos, porque é verdade que nunca vamos abrir uma porta fechada, ainda mais sem nenhuma iluminaçãozinha pelo vão do capacho.
Então, ele disse que acordou e foi direto ao sebo, trocar o livreco remanescente em seu casaco de mil bolsos por umas notinhas. Acontece que não falou nada sobre o caminho intermediário entre lá e cá, por isto agora estamos questionando poeira ultra-reprodutiva e luz mirrada. Entregou o livreco e foi atrás do quê gastar com os trocados que tinha na mão: obviamente alguma comida, com a qual pudesse andar mais um pouco até desmoronar em outro canto poeirento.
O que não me interessa, veja bem.
O ponto é que no livreco tinha um dos bilhetes lembretes que geralmente uso de marca-texto. Você sabe que demoro um mês pra terminar aquela espécie de literatura, daí, geralmente marc... sei, você marca as páginas com seu plano de férias, porque você só lê aquele tipo de literatura antes das férias, pra sensação de alívio ser maior. Você acaba o trabalho, acaba o livro insuportável, acaba os compromissos inevitáveis com a família, me dá o novo telefone da sua prima, me dá um quebra-cabeça de cem mil peças, um livro que você nem usou marca-texto e um doce enorme pra durar trinta dias e vai embora, feliz com seu bilhete lembrete triunfante por ter saído de dentro de alguma história seriamente entediante.
É, é isso. Bem, não empaca, porque por sorte terminei o livro com um dia de folga e isto significa que você vai poder ligar pra Marcela um dia antes do esperado. – olhou com o cérebro de experiência para trás, vendo que a poeira parecia ter virado cimento nos pés dele.
E a segurança imaculada vacilou por uns segundos. Sabia de forma bem fincada em sua cognição que ele não estava se importando com o livro auto-marcável, com as peças montáveis e tampouco com o doce árabe que tinha acabado de descobrir e ia deixar na geladeira dele de surpresa.
Continuou andando pelo corredor da porta aberta com a luz medíocre no final do corredor, talvez para se afastar e levar consigo o breve medo dele de fato empacar, de não se livrar do último abrolho para ir pra aonde o bilhete lembrete mandava. Por fim ouviu passos e seu coração diminuiu o rebuliço, mas não deixou de imaginar poeira como cola espessa a tornar as pisadas dele cada vez mais impossíveis, até destruir todas as suas chances de encontrar o livreco.
Sabe, se você não lembra do que está escrito no lembrete, o itinerário seria surpresa de qualquer maneira, então por que você não deixa eu escolher aonde você vai? Escrevo num guardanapo, coloco num livro maçante, você acorda e vai...
Não. Você pode acabar me montando um roteiro repetido – já começava a se assustar com aquela audácia, e isto não lhe fazia bem. Tratou de armar um argumento de diplomata, de diplomata que impõe só condições impossíveis e disse com um sorriso que o ofenderia e ele jamais compraria – tenho certeza que escrevi um lugar conhecido no bilhete, deve ter algum quebra-cabeça com um postal. Você monta e quando terminar vai me encontrar...
Ele cogitou a proposta de uma forma tão pueril que ela percebeu. Ele não era de ironias e estava praticamente rindo de sua cara. Ela levantou as sobrancelhas, mostrando que havia percebido o sarcasmo de sua expressão. Ainda bem que a luz já tinha aumentado, porque a mudança de maneiras dele estava começando a assustar.
Você tem um trocado? Perguntou sem mais nem menos, fazendo uma erosão na expressão divertida dele.
Pra quê?
A carteira dele estava vazia. E ele nunca, nunca, nunca mesmo ficava sem trocados. Só gastava notas soltas em emergências. E ela se lembrou de que não havia nenhum sebo por ali.
Escrito por Mariana às 23h53
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Estupenda Queda
O Feito mais extraordinário de minha vida foi perceber as últimas de uma bala de menta na minha língua. Não falo daquelas pastilhas que se dissolvem apenas com umidade, elas não contam; refiro-me àquelas balas realmente sólidas. Uma vez colocadas na boca, sob o juramento dos dentes não trabalharem, e o compromisso de os males do destino não provocarem um ataque de tosse, essas balinhas estão prontas para uma eternidade.
Fui vítima de várias tentativas. No início delas quase morri engasgado por inexperiência, quando não se concretizavam, simplesmente. Gostava de tentar vencer a vontade de mastigar antes de dormir: após escovar os dentes (pois se mordesse, o açúcar se alojaria em meus molares, teria cáries e adeus balas de menta), deitar-me e começar a mania de pensar nas vias da vida e de como ela poderia ser se eu tivesse mais fixações além de acompanhar a morte paulatina de uma bala de menta.
Mas eis que cheguei lá. Alcancei minha meta e fiquei devidamente satisfeito. Um sorriso, como um nevoeiro do bosque indo embora. Lembro-me de ouvir o último sopro, as últimas refrescantes aspiração e respiração, as quais, nesta altura de quase epitáfio eram meros bafos decadentes. Suspiros fúnebres de um ramo de hortelã no meio de achas.
Uma passagem pueril na vida de um homem, pode este fato aparentar. No entanto, só foi acontecer após mais de uma década de existência. Estendeu-se mais do que deveria, talvez... Não sei ao certo a data, tampouco onde. Pode ter sido na árvore, ou encima da tampa da cisterna. E é esta vagueza cronológica e aleatória que me aporrinha.
Por não lembrar quando e em qual lugar percebi o fim da bala de hortelã, passo a desacreditar. Posso perfeitamente ter sonhado, ou escutado o mesmo relato de alguém deveras apto a realizar uma façanha de tal magnitude, e atribuído por inconsciente esta ribalta a mim.
A palavra de minha mente deveria bastar, uma vez que senão a dela, não me restará mais nenhuma para crer. Pois já não confio em meus motores. Meu esqueleto está pérfido... Meus pés traidores vão para postigos. Minhas costas doloridas deitam em qualquer musgo.
Então, preciso de uma prova. Quem sabe realizar novamente (ou pela primeira vez?) o tal feito.
Não é mesmo o melhor plano de vida para um adulto. Por certo teria sido mais saudável ter fracassado mais cedo... Ter tido uma estupenda queda antes, trágica o bastante para preocupar-me e ocupar-me até hoje, e agora eu ter motivo para descer da árvore e parar de escutar o barulho da cisterna, porque ambas já secaram e o papel verde da bala de menta é como uma folha de milagre em meu braço estendido qual um galho seco.
Escrito por Mariana às 11h35
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| Putz, estou com este blog há quatro anos.
E ainda falo “putz”.
Pra vocês verem que colocar a minha idade aqui é algo totalmente inútil. Primeiro porque provavelmente ficarei mais de um ano sem atualizar isto aqui, fazendo vocês pensarem que eu ainda tenho 18 anos, e segundo porque, putz, ninguém com a minha idade ainda escreve o que fala.
De qualquer forma, meu nome ainda é Mariana, ainda finjo escutar somente rock e ainda pago recompensas para quem achar meu balde de lego perdido no verão de 1995. Algumas coisas mudaram: descobri como mudar o template do blog, mas preferi deixar assim. Antes, eu queria por tudo mudar, mas não sabia como. As coisas mudaram.
Sejam bem vindos ao blog, que tem esse nome porque houve um tempo em que estava na moda usar palavras sonoramente feias, mas que denotassem uma espécie de sátira inteligente. Sim, eu sei que esta é uma das coisas que deveriam mudar, assim como o template.
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