Esquivou-se das asneiras, contornou suas palavras e golpeou-lhe com a verdade:


Mudança

Olá

O blog mudou para um novo endereço: www.camplot.blogspot.com

Visitem!



Escrito por Mariana às 10h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Tom Camplot

 

 

Algo curioso é o fato de que apenas de uns tempos para cá os cadernos tenham se tornado objetos mais populares dentro das histórias. Ainda que tenham aparecido com o nome de diários ou bloco de notas, há de se notar  que foi um marco evolutivo os contadores de histórias recitarem com mais freqüência os cadernos entre suas personagens.

Conta-se que quando os cadernos não eram da forma como se conhece hoje, as pessoas escreviam na areia, na terra ou em blocos de pedra – dependendo da duração desejada de suas mensagens.

Conta-se que Tom Camplot colocou as mãos em certo Caderno, cujas bordas das páginas eram preenchidas por desenhos que o levou a pensar uma ou duas vezes que o desenhista havia confundido as páginas de papel com chão de areia ou blocos de pedra, tamanha a imprecisão dos rabiscos.

As palavras, porém, eram bastante claras, ainda que em vários trechos descrevesse passagens de um tempo nublado.

Muitos lhe perguntaram se aquilo não seria o famoso Livro de Quartzo, ao que Tom respondia de pronto que não . Porque nos livros estão impressas ou uma história ou uma opinião, ao contrário de cadernos, que expressam o puro pensamento - aprisionado em tinta, mas ainda assim, puro. Era o caso daquele caderno. E o pensamento ali contido era da espécie imaginação, ou seja, muito melhor compreendido em sonhos do que em uma mesa de estudos.

Tom Camplot tinha a capacidade de sonhar sem perder os sentidos. Ele podia recitar páginas do caderno como se fossem poemas e compreender os rabiscos como se fossem filmes fáceis.

Talvez tenha sido a viagem na qual topou com o Caderno que lhe tenha conferido este dom. Mas o mais certo é que logo ao nascer tenha aprendido os primeiros princípios da arte de sonhar sem perder os sentidos.

***

Durante os sonhos o estalar de dedos dura muito tempo e andar com os pés no chão é algo tão obsoleto quanto engatinhar em câmera lenta. Falar é tão letárgico quanto bocejar e viajar de trem, nos sonhos, é mais demorado que ir a pé.                        

Uma coisa, contudo, era a mesma tanto nos sonhos quanto quando se está acordado: as coisas da natureza. E foi aí que Tom descobriu a ponte entre os sonhos e a vida de olhos abertos, aprendeu, então, a sonhar sem perder os sentidos.

 



Escrito por Mariana às 11h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


21 Uma Odisséia no Espaço

Lhe agrada envelhecer, isto a aproxima do que tenta ser desde que nasceu: uma velhinha, numa montanha, com uma coruja resmungona e um cajado não confiável. Contudo, a cada ano, afasta-se mais disso, o que traz muito à tona a história dos que já nascem velhos e rejuvenescem com o tempo. Descobre que pode ir à montanha sem ter cabelos brancos e que corujas não resmungam.

Cada cômodo cotidiano pode ser uma montanha, desde que nele haja cavernas e lágrimas de felicidade a brotarem da terra. E se torna a cada ano uma criança, toda canivete e mapas rabiscados, a explorar morros e vales, aprendendo que os murmúrios das corujas vêm dos ecos do seu próprio pensamento.

 

Gosta de dar voltas ao redor do Sol, isto a aproxima do ponto de onde acabou de sair e do qual já sente saudades. Gosta da surpresa de descobrir que nunca retorna ao mesmo ponto e que já não sente saudades, pois os pontos são desinteressantes e nada saudosos quando se tem acima deles todos os mistérios do mundo ao mesmo tempo.

Este ano o novo ponto mostrou-lhe que só agora nasceu, pois nascer é perceber pontos, voltas e cavernas em qualquer cômodo. Não perceber essas coisas é dormir enquanto se caminha. Por isso, ao acordar espreguiçou seus braços como se o fizesse pela primeira vez, e percebeu que era, de fato, a primeira vez, pois até então suas mãos não tentavam alcançar nada.

 

Gosta de nascer, várias vezes. Pois é aí que se descobre o desconhecido com os próprios olhos ao ver que o desconhecido é o que já se sabe em máscara de Pierrot. Gosta de girar no meio do Universo, várias vezes, prestando atenção em cada segundo e pedaço de passo.

Viajar pelo Universo é brigar para sentar à janela, abrir bem os olhos para estrelas através do vidro, cutucar a pessoa ao lado e apontar com alegria. Não fazer isso é ser bagagem no cômodo sem janelas e sem cavernas.

 

Gostaria de nascer em novos pontos onde a conhecida negra anti forma dos pontos dá lugar a clarões que cegam os velhos olhos e os tornam desnecessários. Gostaria de ver lágrimas de felicidade a caírem sobre a terra, formando rios sem fim. Gostaria que seus giros sobre o chão, o espaço e sobre si não fossem tão rápidos, para que no passo seguinte seus pés não se embaralhassem. Seu presente é querer isso.



Escrito por Mariana às 11h23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Pessoas de Nascença


Não são como as pessoas cicatrizes, das quais lembramos sem embargos de memória, em vívidos cenários repetidos mil vezes em sonhos e pesadelos. Não. São como pintas e manchas no meio das costas, com as quais nascemos, mas que de muito pouco em pouco tempo as vemos.

Sequer sabemos seus nomes. Preferências também não. Conhecemos, contudo, um fiapo de seu itinerário, porque de tempos em tempos se repete ao nosso e ai podemos conhecer ao menos seus rostos.

Tenho algumas pessoas de nascença. Não sei aonde as vi pela primeira vez, o fato é que nelas esbarro vez por outra, trocando risos e olás sem jeito.

São elas: a moça de sobrancelhas fortes que encontro em lugares onde se fala de ciências humanas; o garoto magro de olhos amorosos que surge do nada nas minhas idas à locadora; o rapaz de cabelos bem compridos com skate nos braços que vejo sempre no centro da cidade.

Não sei seus nomes, mas estou certa de que somos co-autores de uma trama que não vejo. Não sei a origem de nossos olás, se nossos cumprimentos vêm de alguma ocasião em que fomos apresentados formalmente, ou se vêm de pura cumplicidade. Sei que não chegará o dia em que viraremos o rosto propositalmente uns para os outros.

Como pintas e manchas no meio das costas, pergunto se fazem parte de quem eu sou. Tamanha minha curiosidade que, na próxima ida à locadora no centro da cidade, alugando um filme de ciências humanas, acrescentarei “como vai” ao “olá”, e acrescentarei também uma careta engraçada ao sorriso sem jeito.




Escrito por Mariana às 12h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Amicites Orchidaceae

Este é um texto sobre meus amigos orquídeas.

Na minha cidade tem um orquidário. Visitando o lugar pela primeira vez achei tudo meio estranho: uma floricultura sem cheiro de terra, a atendente tinha unhas imaculadas e não havia minhocas. As plantas tinham laços de fita prendendo o caule em hastes e as flores pareciam passarinhos orientais.

Tinha planos de não voltar mais, pois não havia me agradado ver flores em vestidos caros.

 Foi aí que, na saída, vi um vaso nu, com uma planta sem adorno cujo caule era preso a haste não com cetim, mas com arame de prender saco de pão integral, a qual me custou as poucas moedas do passe de ônibus. Tive de voltar pra casa a pé na companhia de um vasinho pobre.

Não sei por que comprei a tal planta, choveu enquanto eu voltava e depois eu descobri que as orquídeas florescem mais ou menos uma vez por ano, são cheias de não me toques e depois que crescem pra valer, devem ser amarradas à sombra de uma árvore. Mesmo assim, arranjei uma fita para ela, joguei um pouco de terra fresca e lhe ofereci um pouco d’água.

A fita já ia perdendo a cor e as borboletas ainda não lhe haviam feito festa. As margaridas já estavam na terceira fornada e minha orquídea se mostrava um grande golpe do orquidário.

Foi no inverno, quando um botãozinho surgiu perto da fita desbotada. Corri para fazer um novo laço. Era tudo o que ela precisava.

Fui correndo contar aos meus amigos...

Tenho amigos que cabem em minhas mãos. Eles não ocupam sequer metade dos meus dedos, aliás, ocupam tão poucos dedos que os levo, na maioria das vezes, no coração ou nas lembranças. Talvez por isto os visite tão pouco, porque dou mais atenção ao monte de coisas que levo nas mãos.

Mas isto não impede nossa amizade de ser amizade. Isto, contudo, faz com que esta amizade seja de uma espécie rara, que floresce, sei lá, uma vez por ano.

Houve um tempo em que me encontrava com meus amigos em datas de aniversário, no carnaval ou em dias de julho. Houve um tempo em que escrevíamos uns para os outros contando aventuras toda semana, quase transformando nossas orquídeas em vulgares margaridas.

Houve um tempo em que quase um ano se passou e tivemos que abraçar juntos o caule mirrado de nossa amizade e rezar baixinho para que ele não tombasse. E ficamos tão assustados nesse dia, que quase desejamos ser margaridas e perder o encanto das orquídeas, só para que o caule não tombasse.

        Felizmente, me lembrei que tudo o que precisávamos era de um novo laço.



Escrito por Mariana às 15h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A Questão do Hoje e de Como Ele se Comporta

Hoje desde cedo já não é mais, pois a cada segundo, a cada convite Hoje se transforma num ontem inacabado.

Muitos já falaram sobre isso, mas poucos viram suas cores turvando-se em câmera lenta. Revelando-se uma dessas ilusões nas quais apostamos nossas fichas e pelas quais atravessamos portas de gesso.

Em dias como hoje damos passos para a eternidade. Em dias que logo se transformarão em lembranças puídas, aceitamos propostas para o sempre, amarramos trouxas em gravetos e explicamos aos nossos sapatos que, hoje, eles não se colocarão para o ar.
Nessa altura, hoje também passa a ser amanhã, como a ponta distante de uma corda imita as ondas desde a primeira ponta.

O que quero dizer é que esses dias para trás, num dia como hoje, dei um passo sem volta. E ainda que aquele Hoje já esteja sentado no monte de ontens e anteontens, ele tem se comportado como Agora. Pois aquele passo hoje se mostrou mais do que efêmero trocar de pés no chão. Aquele passo tirou toda a temporalidade de um só dia. Aquele passo trouxe para um instante todo o mistério das coisas que não acabam nunca.

Estou falando, é claro, do dia em que decidi fazer de meus olhos algo para fotografar a vida, colocá-la num álbum e vez por outra ser folheado em algures de minhas memórias. Do dia em que resolvi fazer de minhas mãos algo para carregar os instrumentos e preparar refeições para a arte, do dia em que resolvi colocar meu coração em uma balança em equilíbrio com folhas e penas.Foi num dia como hoje. Hoje que não tem questão e que de longe se comporta. Ora é turvo, ora é sem cor. Ora não é nada. Hoje que uma ou duas vezes entre ontem e amanhã, é o sempre e o eterno.

Cabe no hoje uma vida inteira, desde que toda essa vida beba na fonte descoberta em um só dia. Descoberta que vem de muitos portos e oceanos, muitos ventos e estações, mas que partiram de um só dia, quando, como hoje, decidi ter uma conversa com meus sapatos.

Quando reparo ter sido uma daquelas pobres que um dia viram um Hoje turvando-se lentamente em Todo, pergunto-me se terei amanhã. Se meus planos com os mais variados destinos perderam o sentido. Pergunto-me se estarei, um dia, sentada em algures da memória folheando dias passados, quando tudo o que se haverá para folhear serão retratos de um Hoje que jamais deixou de ser agora e sempre. Quando penso nisso cessam meus temores do amanhã, cessa minha inimizade com o que se passou, caem máscaras e caem calendários.

Quando penso nisso entendo que o que se foi e o que virá não cabem em minhas mãos que por sorte obedecem a leis além das minhas.



Escrito por Mariana às 09h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Papel Alumínio

 

Eu sei que o que eu vou fazer aqui não é bonito, mas é o seguinte: tava mexendo nuns arquivos medievais aqui do blog e achei esse texto que escrevi aos 15 anos e passava por problemas existenciais. Não que esses problemas tenham voltado, mas é que eu estava lendo o manual mor dos blogs e vi lá que todos os blogueiros e blogueiras têm direito a escolherem um texto para ser postado duas vezes. Vai esse, então.

 

 

 

Lá estava ela, não usava chapeuzinho algum, tampouco saiam de sua cabeça algum tipo de cachos dourados. Porém, acima de tudo, era feliz, até porque o chapéu, de longe tamparia todas as tempestades, as quais noite e dia ameaçavam sua cabeça. E se tivesse cachos de ouro, não tardaria a ficar careca neste mundo.

No limiar de sua vida escolar ganhou férias! Sua prima veio atormentar-lhe a vida, como se a tia não bastasse, ela com seus gritos sufocantes, a irmã indiferente e o primo ainda nas fraudas a espalhar odores indesejados e na pior das hipóteses, odiados.

 

Parecia estranho, ouvira falar que férias seriam para seu descanso. Certamente isso não passava de uma teoria, uma teoria oposta a pratica, nem parecia que se travam do mesmo termo, tamanha era a oposição entre ambas.

 

Lutou para apaziguar as duas grandes divergências de sua vida: Teoria e prática. Em tudo havia uma Guerra entre tais conceitos. Na matemática a prática era contar laranjas - so easy - a teoria eram milhares de cálculos aterradores. No esporte a teoria eram regras, a prática, brincadeiras com as amigas.

 

Por quê então que a maldita coisa chamada Férias, havia de ser diferente? Era a Rainha da cocada preta por acaso? Bebia e cuspia ouro? Acendia o fogo com notas de mil dólares? Por que sua teoria era tão legal: viagens, amigos, passeios, fotos, risos e doces, enquanto sua prática era recheada de gritos, tédio, mandamentos esdrúxulos e regras de como não bagunçar as coisas?

 

Cavou um buraco no jardim, a fim de encontrar a resposta, avistou num emaranhados de ervas daninhas uma luz, cavou mais um pouco e quando alcançou percebeu que era apenas um papel alumínio. Mas brilhava tanto! Olhou pra cima e se assustou com o sol.

 

O papel era tão pequeno, tão sujo de terra, tão velho. E aquele raio de sol o fez brilhar e enxaguar a alma da menininha. Olhou para o papel e olhou pra si, colocou o papel diante do sol depois se levantou para que ele também a fizesse brilhar.

 

Sua tia gritou: GAROTA! SAIA DO SOL! VAI TE FAZER MAL! Cabisbaixa entrou na sala fria, cujas paredes não deixavam as luzes naturais entrarem, elas batiam a porta e todos fingiam não ouvir. Percebeu que o sol não era pra si, buscou dentro da casa algo no mínimo parecido com ele.

 

Avistou uma luz num dos quartos: era um monitor, de computador. Não era bonito, era até antiquado, o quão quadrado aparentava ser. Digitou umas palavras num certo site para procuras. Viu milhares de referencias à sua busca, nenhuma delas semelhante ao brilho presenciado mais cedo no jardim.

 

Se livrou do velho papel alumínio, ainda no bolso, num ralo de banheiro. Seu avô descobriu um problema no encanamento dias após... A menina espiou de longe e aprendeu a nunca mais jogar fora as poucas pistas e as poucas coisas que brilham com um simples raio de sol.



Escrito por Mariana às 10h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Para os Inquietos

Quando penso em filosofia e quando as circunstâncias me permitem falar dela, gosto de pensar em dois filósofos: o primeiro que foi o criador do nome filosofia; o segundo, aquele que é considerado o disseminador dela para toda a humanidade ocidental.

Penso, então, em Pitágoras e Sócrates. Ambos, ao praticarem (sim, praticavam, ao invés de ficarem entre quatro paredes falando de trás de um palanque) filosofia, portavam-se de uma virtude em particular: a humildade.

Pitágoras, por exemplo, inaugurou o termo filosofia na seguinte situação: seus discípulos, não se contentando em chamá-lo apenas de mestre, resolveram chamá-lo de sábio. Pitágoras, então, corrigiu-os, dizendo que não era sábio, mas um amante, um buscador da sabedoria: em grego, um filósofo.

Sócrates eternizou-se com o seguinte postulado: “só sei que nada sei”.

Portanto, caros, o que compõe o verdadeiro significado da filosofia é a busca pelo saber, sem partir do pressuposto de que sabemos algo. Daí, tentar aprender com tudo e todos, para não perder a oportunidade de sair de um segundo para o outro menos ignorante*.

Entendo que é quase inevitavel o comodismo de aceitar conceitos impostos e imortalizados por professores e pela TV. E entendo que os tapas da educação em série das massas ainda ardam em nossos rostos. E por saber que recebemos esses tapas desde antes de formar-mos uma consciência sóbria tenho compaixão por aqueles que chamam de filósofos o ébrio, o carregador de diploma, o poliglota, ou simplemente o homem de óculos no banco da praça.

Entendo que a decadência de valores e de autocontrole de nós mesmos e do curso de nossos pensamentos nos levou a crer que, o que hoje desune os homens se chama Religião, o que expressa o feio e podre se chama Arte, aqueles que compões melodias para o dadaísmo são Músicos, e menores impúberes com cabelos rebeldes fazem Rock.

Contudo, uma vez que conhecemos o verdadeiro e puro conceito de Filosofia, que tem a ver com o resgate de valores e virtudes. Que tem a ver com inquietação ante os esquemas armados sobre como viver e morrer dentro de caixotes. Que tem a ver com buscar a mudança que queremos primeiro em nós, depois ao redor . Que tem a ver com fazerd a vida a aventura de quem não sabe o que está no passo seguinte mas que deseja chegar ao desconhecido com os próprios passos...

Ah... quando conhecemos esse significado simplório e que tanto perde encanto na minha falta de destreza ao escrevê-lo, usar o nome da Filosofia para adjetivar homens e mulheres cômodos, que em sua ignorância dizem saber tudo enquanto lixam as unhas, torna-se um ato de covardia e desrespeito.

Portanto, deixo aqui a oportunidade de possuirem uma outra alternativa a respeito do que é Filosofia.

Oportunidade que recai primeiro sobre mim mesma – que tenho certo compromisso pelo que escrevo – e para leitores que por desventura ainda pensam saber algo enquanto não sabem sequer por onde começar a praticar o que sabem.

Oportunidade de tirarem das vistas um pouco da lama colocada pela informação manipulativa e meios que tanto contribuiram para o atrofiamento de nossos pensamentos sobre tudo.

Filosofia, assim como a Poesia, não é a tradução de vesos soltos sobre torradeiras e pesadelos. Não é o cultivo de pêlos no rosto. Assim como a Arte, não é a lata de tinta que por acidente forma uma imagem.  É a explicação sobre a essência humana, sobre o verdadeiro rosto de seus sentimentos e de suas marcas na História. Sobre o que se passa conosco, com a natureza e com o Universo.

Explicação que talvez nunca nos dê o conhecimento pleno, mas que engendra uma trilha de buscas e passos que por vezes tropeçarão, mas que tropeçarão por caminharem segundo seu próprio discenimento e consciência .

Tropeços que são mais dignos e preferíveis  do que uma vida de passos retilíneos e firmes que assim o são porque andam presos a fios e correntes enlaçados em seus pés; fios e correntes guiados por mãos de rostos ocultos.

 

*Ignorância: segundo Platão, em “As Leis”: “amar o que é injusto e odiar o que é justo”.



Escrito por Mariana às 18h49
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Sobre o que Farei nos Próximos Meses

Este ano aconteceu e de eu iniciá-lo após escutar a seguinte frase: “o que você fizer na virada do ano – seja lá o que for – você continuará fazendo pelo resto dele”.

Algo em mim acreditou nisso e esta talvez seja a explicação de por que à meia noite comecei a achar graça da vida e a apertar meus olhos para que vissem outras cores e segredos que moram não muito longe, mas dentro de mim.

Hoje é dia 6 e ainda tenho um sorriso pendurado sobre a vida, ainda tenho o cenho em revolta, tentando entender os cochichos na minha mente e... e ainda estou almoçando arroz com lentilhas.

Posso me ver daqui alguns meses andando furtivamente pelos cantos dos meus pensamentos, espremendo as vistas por entre as fechaduras das portas da minha imaginação, com um dicionário fajuto de sonhos, tentando decifrar o que seus corredores turvos dizem...

Posso me ver em junho, já com certo enjôo do pôr do sol, ainda procurando novas cores. Quem sabe violeta em meio ao mar laranja do fim do dia e o azul escuro da noite...

Posso me ver jantando arroz com lentilhas em plena primavera.

 Posso me ver sorrindo nos momentos de tristeza e frio. Sorrindo ao cair de abismos e em dias de perda. Nunca deixando de sorrir e ver com graça a vida que às vezes chora.

Por algum motivo, não fico triste com esta escolha de hábitos em plena virada do ano. Enxergo uma graça amarela em sorrir para sempre. E escuto, do vislumbre azul que tenho desse sempre, um assobio fino passando por entre aquelas fechaduras.

Acredito que isto já seja alguma coisa.



Escrito por Mariana às 11h00
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Lista de Desejos com um Pedido Só

         Quero a simplicidade porque a simplicidade não é não ter nenhum adorno. A simplicidade é não precisar de adorno algum. Quero ser simples ao pensar sobre as coisas e desprender minhas opiniões das críticas sobre todos. Quero desprender-me de opiniões. Quero reduzir as equações imensas a somas simples daquilo que é necessário com aquilo que é justo. Quero colocar cada coisa em seu lugar, ainda que isto me coloque no mesmo lugar que todas as outras criaturas, ainda que isto me faça comum e pálida. Quero deixar os juízos de valores para aqueles que precisam provar o que querem ser - mas não são - a si mesmos. 

          Quero encontrar a felicidade no nada que sou. E por nada ser, quero encontrar a leveza de quem não carrega nada. E por nada saber, quero encontrar a paz de quem só tem a descobrir em cada novo franzir das nuvens. Quero perder o medo de despir-me da armadura enfeitada com a qual trato as palavras e os sentimentos. Não preocupar-me em usar frases inéditas formadas por verbetes de um dicionário já escrito.

       Tudo isso, imagino - e com esta imaginação me comprometo - são pegadas da simplicidade. Porque a simplicidade fala para além das máscaras sobre nossas olheiras de seres velhos. A simplicidade fala para além de nossos ouvidos que mais falam do que captam. A simplicidade narra a verdade sem profetizá-la. Separa o certo do errado sem julgá-lo.  Tudo isso porque a simplicidade fala para o que de simples há em nós. Fala para o que em nós está sufocado por pedras falsas, banhos de lama e pequenos ódios.

Quero a simplicidade, mesmo sabendo que ela abrirá meu peito coberto de cristais, ouro e espinhos e colocará ali um avental puído de pano e pétalas. Quero a simplicidade, mesmo sabendo que ela apagará as complicadas telas impressionistas e desenhará um lago uma relva e uma chaminé. Quero a simplicidade, mesmo sabendo que ela irá me afastar dos grandes seres que conheci e me colocará na presença de um velho com um cajado e uma coruja magra.

Mesmo sabendo que ela me arrancará as teorias e me dará a tenra arte. Quero a simplicidade, ainda que ela minta meu parentesco com os Reis e afirme que sou irmã da formiga, da abelha e do grão de areia. Ainda que ela afirme eu ser nada, um ser há infinitos passos de ser algo. Quero a simplicidade porque sei que o nada é um intervalo, um recanto passageiro, um descanso do Todo que vez por outra dorme. Quero aceitar ser nada porque sei que preciso desse descanso, desse recanto, desse intervalo, para acordar a simplicidade que em mim dorme.

Quero a simplicidade para que meus passos não se assemelhem aos dos mamutes. Para que meus sentimentos não se assemelhem à fúria da natureza. Para que eu sinta o que há de puro e inocente em mim. Para esquecer meus feitos e recordar os passos tortos que dei desde o início dos tempos... Por tudo isso coloco meus pés em pontas ao passar por estes cacos e seus jogos de luz...

Por tudo isso retiro as lentes grossas de meus olhos que mal podem ver as cores. E cesso meu pedido em uma prece sussurrada. Quero a simplicidade, que me levará as correntes de ouro e de aço que me prendem ao franzir das sombras... Quero ser simples, porque quero ser minha essência, que nada tem de raro, mas que em sua simples alquimia não me deixa ser o que não sou.



Escrito por Mariana às 21h56
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


The A Word II

Fazia um tempo que os braços não se transformavam em borboletários, desses que, além das borboletas, correm riachos velozes, vento de frentes frias e manadas de mamutes. Fazia um tempo que seus braços não se atrapalhavam e deixavam as coisas cair.

 E sua mente seguia o mesmo rumo. Rumo sem norte e aquém de todas as bússolas.

Numa dessas revistas de paleontologia, descreveram o que vinha sentindo como sendo amor. Numa revista de paleontologia porque a descrição, segundo a reportagem, estava numa dessas cavernas sem tempo e sem lugar.

E foi descrito ao lado de homens com lanças e animais extintos. Talvez pareça estranho o amor ter sido desenhado tão próximo de imagens tão brutas, mas para alguns, isto faz muito sentido.

Dizem que o amor está em um ponto bem elevado e metafísico. Cabe a nós, então, investigar porque ele decai ao ponto dos nervos, ao ponto em que o corpo se curva de tanta dor. Ao ponto em que a respiração se torna uma piada e a fala uma lenda.

Talvez, quando os homens descobrirem que o amor, as lanças e os animais extintos não se tratavam de desenhos separados, tudo fique mais claro. E talvez o que ficará claro é que o homem não sabe amar.



Escrito por Mariana às 18h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Medo da Morte

Mês passado foi minha vez de passar por uma daquelas situações de auto sabotagem em que, na maior das inocências, se revela desconhecer um fenômeno da natureza que, pelo jeito, ensinam às criancinhas da terceira série. O fenômeno da natureza de que falaremos é As Árvores Morrem.

Foi assim: no intervalo da aula lá na Nova Acrópole, estava eu passando com uma camiseta de proteja-o-cerrado perto de alguns colegas, quando elogiaram o lindo ipê amarelo da estampa e logo teceram ricos comentários sobre os ipês.

Se fosse aquela uma escola qualquer, que ministrasse cursos de espanhol, por exemplo, a conversa teria parado em: “no México, eles chamam o Ipê de primavera..”  . Mas  estamos falando de uma escola de filosofía, e logo logo o ipê da mina camiseta atingiría seu ponto metafísico e moral.

Um dos colegas, contou que os Ipês são árvores que avisam quando vão morrer. Sim, eles morrem.

Continuou esse colega que, na época da morte do Ipê ele floresce alguns meses antes. É batata. Ao contrario dos seres humanos, que ficam calejando suas mãos de tanto se agarrarem nas paredes do entre a vida e a morte, os ipês não apenas sabem quando vão morrer, como o fazem tirando uma onda com a senhora de capuz e foice.

Depois dessa, secretamente comecei a despedir-me dos ipês na rua e a ficar atenta caso surgisse em mim uma vontade de usar vestidos floridos antes de setembro.



Escrito por Mariana às 07h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Rodin

Faz um tempo que ando fazendo um curso de filosofia. Tinha a esperança de que em cinco meses eu estaria livre, com um alvará para sentar no primeiro banco de praça, aconchegar meu punho sobre o queixo e virar uma pedra. Mas, por uma meia dúzia de motivos, acabei ficando por mais um ano e descobrindo que há coisas melhores para o homem se tornar, que não uma pedra. Estou treinando para ser uma montanha, com neve no topo e grutas azuis, que são azuis sem precisar da luz do céu.

O fato é que numa das provas havia a velha questão de conhecer-se a si mesmo. Vai ver foi isso que esticou os cinco meses em mais de um ano.

Para resolver essa questão de uma vez por todas, fiz-me o mais inocente dos convites: tomar um café. Na verdade, para tomar um balde de açaí (acontece que como ainda sonho em ver um texto meu publicado no Times, procuro usar bebidas e lugares universais), assim, me chamei pra um café, em qualquer lugar com wireless. De qualquer forma fiz esse convite porque é num simples café que conhecemos pessoas que podem se tornar nossos melhores amigos, namorados ou escritoras de Harrys Potters.

Conversa vai, conversa vem e não consegui descobrir muito, além de um gosto fenomenal por boa música e grandes feitos da renascença. Descobri o que fazia da vida, como fazia e o que queria fazer. Não consegui descobrir-lhe a idade ou o número de suas roupas, pudera, nem de mim eu consigo arrancar esses dados...

Quem era, de onde vinha, para onde e como iria remanesceram um Mistério.  Percebi então que meu convite, o café e a conversa mole haviam sido em vão. De tanta frustração a fiz dividir a conta comigo e levar pra casa minha cara emburrada.

Foi quando ouvi meu nome para que eu me virasse, e quando o fiz, vi uma menina, vestida de montanha, sentada entre vales. De sua face escorria um rio calmo, que pingava de seu queixo para os ossos do ombro, formando ali o início de uma gruta.

Esfreguei os olhos, e assim também fizeram todas as pessoas no local. Em menos de um segundo, a menina tinha desaparecido de entre os vales e da memória de todos, que voltaram aos seus bancos e pensamentos de pedra.



Escrito por Mariana às 13h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Idade da Pedra

Sentei-me para escrever o que há muito não me atormentava: a impaciência. Faz tempo que ela não me rende bons parágrafos de espera, pois tenho tido tudo bem na mão e no estalar de dedos.

Só agora resolvi – ou precisei – fazer uns investimentos de longo prazo. Deixei recados para amigos, e conto os segundos pra chegar uma resposta. Comecei a ler o que eles chamam de Clássicos e conto os minutos para entender o que li e reli há um mês.

Isso me leva a perceber que a impaciência não era o que rendia estrofes e versos. Querer era o que me fazia dissertar por horas e horas. Há um tempo que não quero nada, só agora, com sucessivas perdas, a impaciência voltou.

Voltaram as contagens regressivas, o roer de unhas e o roer de sono.

Apostei com meus botões que o que me faria voltar a garimpar as palavras seria tropeçar em algum fato catastrófico, que alteraria todo o curso da vida. Mas descobri que a mais ordinária pedrinha é o suficiente para alterar o rumo das coisas.

Esse dias para trás, despedi-me dos meus amigos imaginários. Despedida que estava sendo ensaiada há uns bons anos, mas que devido à negligência de colocar em prática esse adeus, parece que foi ontem que acenava aos meus amigos alados, com nossas lembranças embrulhadas numa trouxa.

Apostaram entre si que eu ficaria bem, pois deixavam comigo uma pilha de conselhos. Perderam a aposta. O homem ainda precisará dormir e acordar milhões de vezes para deixar de sentir saudade e colocá-la em seus poemas.

Vez por outra, nos cantos vazios da mente, encontro objetos etéreos dos meus amigos e tento sentir ódio por causa de seu abandono, mas recordo que também não foi fácil para eles, porque não sou uma amiga de se jogar fora. E, além disto, eles deixaram bons episódios na memória. Ao invés de rancor, tudo o que consigo é sentir aquele nostálgico conforto sublimado em sonhos.

E exclamam: ora, mas isto é mais que uma pedrinha. É um paralelepípedo!

Não. É uma pedrinha. Daquela espécie que os homens levam impacientes séculos para encontrar, chamam de diamante e guardam em algures do peito.



Escrito por Mariana às 20h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Os Clássicos

Vai completar quatro anos que adio pela terceira vez o desafio de largar a ficção pueril e partir para os clássicos. Estava quase lá quando o Dan Brown surgiu na praça e, de quebra, minha professora de Língua Portuguesa me emprestou um Agatha Christie dela.

Digo que estava bem perto de conseguir porque isto foi no meu aniversário de quinze anos, quando meus pais me presentearam com um exemplar de coleção de Os Miseráveis. Ocorre que naquela ocasião também recebi algumas cópias do Sidney Sheldon e da Meg Cabot (O Diário da Princesa) de presente. E mais uma vez tive de parafrasear Mark Twain, acerca dos clássicos: são os melhores, mas ninguém lê. Logo, afirmo com convicção - ainda que às cegas - que Victor Hugo está no topo da cadeia literária mundial.

Cheguei a mentir algumas vezes, estritamente para pessoas as quais queria desesperadamente impressionar, que apesar de ter lido Os Miseráveis, não era a pessoa certa para comentar sobre, pois eu começava a chorar só de lembrar da Fantine nas sarjetas. Hoje está claro por que essas pessoas não se impressionaram.

A verdade é que o mais perto - geograficamente, inclusive - a chegar de um clássico foi, certa vez, em que minha mãe lia Os Maias e espiei por cima do ombro dela o nome Tobias. Então, resolvi chamar meu cachorro assim.

Até hoje o Tobias enche os olhos d'água sempre que parto pra uma viagem de carro ou para a fila do banco/dentista com um exemplar com capa holográfica de Artemis Fowl ou Harry Potter sob o braço. Enquanto isso, os dois volumes da vida do Jean ValJean & a Rev. Francesa jazem empoeirados entre os puídos de tanto manuseio "O Apanhador no Campo de Centeio", "Tomates Verdes Fritos" e "A Sangue Frio".

Há quem diga que cada um tem seus próprios clássicos. Eu vou contra esta opinião, senão daqui a pouco teremos versões encadernadas de James Bond tirando sarro de "Os Sertões". No fim das contas tenho é inveja de quem já leu os clássicos; talvez por consolo, defendo a tese de que cada um tem o direito de consagrar, ao menos para si, um clássico.

O meu seria “Tomates Verdes Fritos”. Admito que não poderia haver um título menos apropriado para a categoria, isto porque ninguém nunca ouviu falar da autora (Fannie Flag); segundo: é o tipo de enredo que não ficaria bem em capa dura; terceiro, e sobretudo, porque rodaram um filme a respeito, o qual ficou tão bom que apenas um bobo perderia tempo para ler o livro.

Bom, eu fui boba o suficiente, ou estava com muito tempo de sobra. O fato é que não me arrependi. Apesar de estar sozinha nessa defesa, já que nenhuma das dez pessoas para quem recomendei leu, continuo na tentativa de transformar “Tomates” num clássico.

Eu não diria que Fannie Flag tem a mão leve da Clarisse Lispector ou a preocupação de denúncia do Machado de Assis. Tudo o que posso dizer - ou pelo menos o que consigo - é que ela encontrou uma forma fórmula estética e cognitiva de contar a história de mais ou menos uma dúzia de personagens únicas, cheias de consistência e doçura, as quais, com todas as peculiaridades, residem em conjunto em cada singular indivíduo vivo.

Não se vê muitas tiragens da obra em sebos ou livrarias, o que me faz acreditar, com um pouco de inocência, que isso se deve ao fato de que ninguém quer se desfazer de seus exemplares ou que eles não são divulgados por puro egoísmo, pois após terminar os capítulos, recai sobre o leitor uma deliciosa sensação de segurar um filhotinho de cachorro, sabendo que se ninguém souber que ele existe, ele nunca ficará adulto, e, sim, um filhotinho pra sempre.

Enfim, o fato é que eu nem deveria estar aqui bajulando “Tomates Verdes Fritos”, pois morro de chorar só de lembrar o que aconteceu com a Ruth.

 



Escrito por Mariana às 15h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


    Votação
    Dê uma nota para
    meu blog



    Outros sites
     Nova Acrópole, escola de filosofia
     Sem Reais
     Observador
     Vitrine pessoal
     Head Over Feet
     CruSSificados
     Decidimos Viver
     Não ser
     No Limite Da Razão
     Ordisi Raluz
     Coisas da Normandia
     Padoca do Mutante
     Pedrobentice
     Silêmncio
     Comentários Abertos
     Aline
     Sucupiras
     Bloggagens